"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!" - Nietzsche
segunda-feira, março 31
domingo, janeiro 20
Paulo Freire em Dose Única!!!

"Sou professor a favor da decência contra o despudor,
a favor da liberdade contra o autoritarismo,
da autoridade contra a licenciosidade,
da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda.
Sou professor a favor da luta constante
contra qualquer forma de discriminação,
contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.
Sou professor contra a ordem capitalista vigente
que inventou esta aberração: a miséria na fartura.
Sou professor a favor da esperança
que me anima apesar de tudo.
Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza.
Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática,
boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar,
se não brigo por este saber,
se não luto pelas condições materiais necessárias
sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar
e de já não ser testemunho que deve ser de lutador pertinaz,
que cansa, mas não desiste."
(Paulo Freire)
terça-feira, janeiro 8
Filósofos de gabinete, filósofos de jardim

Argumentava que a filosofia se verifica na primazia do interesse cognitivo, na escolha de uma construção, de uma imagem do mundo, num princípio indutivo, auxiliado por várias outras operações lógicas e matemáticas que a teoria da cognição contemporânea tem observado e estudado cada vez mais, fazendo lentamente dilatar e modificar a compreensão do nosso potencial racional e cognitivo.Vamos descobrindo que nossos cálculos, nossas induções e apontamentos, são superáveis em outros momentos do tempo, que nossa lógica evolui cada vez mais (desde que nos esforcemos, é claro) e que somos capazes de detectar erros, aprofundando via atenção, assuntos que não têm um limite estabelecido, conhecido. É a forma como evolui a filosofia, a consciência.Em 1998 eu estudava um detalhe meditando sobre a obra do filósofo francês Alain Badiou, quanto ao "status lógico do procedimento de antecipação de hipóteses (pré-juízos) para gerar o conhecimento". Estava já bastante ciente da quantidade de imaginação, de "livre lance de dados" (pré-lógicos ou a-lógicos), de "invenção fortuita do caminho"- entravam no amálgama do que chamamos conhecimento, na formação e evolução da consciência. Achava naquela época que este era o atual "problema da indução", já enunciado por Popper, quando passamos a induzir pontos, "premissas", que logicamente e a priori não se justificam, não se encontram, não são possíveis.Passava a ver, desde então, que o conhecimento edificava e justificava a pessoalidade, o sujeito, mesmo havendo pontos "exteriores" de apoio. Em resumo, o conhecimento estava ancorado numa vida, e dali vinha sua lógica. Na época, minhas esperanças com a filosofia eram a de ancorar numa atividade lógica.Do que seria capaz essa vida, o sujeito, para amparar suas vontades, ou em outras palavras, sua opinião, sua doxa natural, como ele acha que são as coisas, ou a que sua intuição natural o leva a crer e induzir, é uma conversa extensa. É que Paul Feyerabend chamava de vale-tudo.Tenho descoberto por meio dessas reflexões que a ciência - o estar ciente, a maneira de ver as coisas, de nomear e estruturar o mundo, a consciência praticada pelo indivíduo - é um assunto sujeitual, individual, único. Ainda me interesso pela defesa de um organograma para a filosofia, mas não de um tipo que procura enunciados finais, fixos, sobre a realidade. Pelo contrário, interessa-me a argumentação de um "estatuto" para a filosofia embasado justamente na observação da inexistência de pontos finais, moldes fixos, padrões recorrentes e nivelamentos.Parece que os padronamentos são sempre forçosos.
Esta perspectiva elabora portanto uma noção diversa sobre o conhecimento. Espécie de "construção firme, em terreno incerto", ela parece evoluir negando, estruturar - negando. Nela não se acredita na possibilidade de apontamentos definitivos (juízos de valor) à realidade, mas se mantém a idéia de que tais apontamentos são, na verdade, absurdos perante a lógica-crítica. Se são propostos apontamentos, isso é feito por mecanismos indutivos, pré-lógicos ou a-lógicos. Eles são sempre proposições sujeituais, não-objetivas, ou seja, partem de sujeitos ou indivíduos. A "objetividade" proposta (e para isso temos vários mecanismos como argumentação, contextuação, necessidade, repetição, etc) parece ser sempre meio.Assim, na filosofia, na vida, onde quer que haja conceitos - idéias -, as proposições são sempre sujeituais. Partem do indivíduo.Isto significa ademais, que não existe objetivo pré-concebido na vida. Tudo depende do apontamento. Quem o faz é o sujeito. E ele não é realmente obrigado a fazê-lo. Pode querer por exemplo, permanecer "vazio", cético e crítico. E parece haver maneiras criativas de sê-lo. Um exemplo é Sócrates, que dizia nada saber.
Nietzsche observou: "estamos inclinados a afirmar por princípio, que sem um deixar valer as ficções lógicas, (...) o homem não poderia viver".
Ficções lógicas são imaginações, delírios ensaístas do ser humano, pré-juízos. Constantes antecipações mentais.Nietzsche fora genial ao perceber que sem essas ficções lógicas (vontades, imaginação, inclinações, buscas, sonhos), nossa aventura com o conhecimento, com a vida, não seriam possíveis. Elementos a-lógicos (um tipo de ilusão), sonhos e vontades, parecem compor parte do material indispensável para a edificação e evolução do conhecimento e da consciência, proporcionando-nos seu funcionamento. Sem tais elementos, é mesmo difícil imaginar a vida. As ficções são altamente individuais.
Considero portanto, que a consciência se constitui através de duas maneiras, geralmente consideradas. Ela pode manifestar-se como consciência crítica, cética ou analítica, em geral anti-dogmática, sendo a epoché - suspensão de juízos de valor - o máximo a que conseguimos chegar com este tipo de investida. (Eu costumava chamar isso de "lógica pura").Segundo esta perspectiva, quem quer que se aventure a pronunciar algo estará absolutamente em erro, visto que a estruturação cognitiva sempre está mesclada de pré-juízos, vontades, antecipações, forçamentos.Este tipo de filosofia todavia, parece empreender seu conhecimento por vigília, por negação e reprimenda aos saberes poéticos, tornando-se ocupada em vigiar suas próprias construções (auto-crítica) e as dos outros. Ela pode facilmente criar uma tirania da razão pura. Um império cético.
Este tipo de pensamento, tende a considerar filósofos aqueles que chegam a perceber que objetivamente o conhecimento é nada. Aqueles que se deparam com sua "razão crítica não indutiva", puramente crítica, e que não querem - nunca quiseram - propor conhecimentos. Lançaram-se um dia simplesmente a uma pesquisa lógica, de cunho analítico, com uma intenção de imparcialidade. Há aí o privilégio da via analítica, estrutural da filosofia, do conhecimento por reflexão ponderada entre termos, entre antinomias, entre a dialética do mundo, do dia-a-dia, dos momentos diversos que constituem a vida.Contudo, a filosofia (consciência) também pode - e esta é sua segunda maneira geral de manifestação - usando da imaginação, tecer inumeráveis hipóteses (antecipadas à experiência e ao conceito) sobre qualquer coisa, onde a poética, o livre - imaginar, o juízo hipotético (e não sua suspensão) são as próprias asas, a própria fonte do sentido. Esta é uma forma propositora de filosofia, que anima-se em formular hipóteses. Aí se manifesta a invenção da metafísica. Na necessidade constante de preencher o vazio constatado pela razão crítica, que observa a "falta de um sentido prévio e dado" na vida.
Temos aí duas formas de pensar, dois modos gerais de manifestação da consciência que, contudo, mesclam-se para produzir a ciência, a consciência. Se a primeira é radical, cética e crítica, a segunda é sonhadora, nada crítica e in-consequente; isto é, suas construções não advém de conseqüências lógicas, mas de um tipo de criação conceitual, onde não são necessárias premissas. Colocam-se deliberadamente premissas.
A própria possibilidade de propor conceitos e levá-los adiante está submetida a essas duas naturezas. A estruturação de sentidos por exemplo.Acho que estas são descrições que situam a compreensão de boa parte da estrutura da consciência humana como é hoje praticada.Elas fazem parte de minha tentativa de fornecer um organograma contemporâneo para a filosofia.
C. Veronese
Esta perspectiva elabora portanto uma noção diversa sobre o conhecimento. Espécie de "construção firme, em terreno incerto", ela parece evoluir negando, estruturar - negando. Nela não se acredita na possibilidade de apontamentos definitivos (juízos de valor) à realidade, mas se mantém a idéia de que tais apontamentos são, na verdade, absurdos perante a lógica-crítica. Se são propostos apontamentos, isso é feito por mecanismos indutivos, pré-lógicos ou a-lógicos. Eles são sempre proposições sujeituais, não-objetivas, ou seja, partem de sujeitos ou indivíduos. A "objetividade" proposta (e para isso temos vários mecanismos como argumentação, contextuação, necessidade, repetição, etc) parece ser sempre meio.Assim, na filosofia, na vida, onde quer que haja conceitos - idéias -, as proposições são sempre sujeituais. Partem do indivíduo.Isto significa ademais, que não existe objetivo pré-concebido na vida. Tudo depende do apontamento. Quem o faz é o sujeito. E ele não é realmente obrigado a fazê-lo. Pode querer por exemplo, permanecer "vazio", cético e crítico. E parece haver maneiras criativas de sê-lo. Um exemplo é Sócrates, que dizia nada saber.
Nietzsche observou: "estamos inclinados a afirmar por princípio, que sem um deixar valer as ficções lógicas, (...) o homem não poderia viver".
Ficções lógicas são imaginações, delírios ensaístas do ser humano, pré-juízos. Constantes antecipações mentais.Nietzsche fora genial ao perceber que sem essas ficções lógicas (vontades, imaginação, inclinações, buscas, sonhos), nossa aventura com o conhecimento, com a vida, não seriam possíveis. Elementos a-lógicos (um tipo de ilusão), sonhos e vontades, parecem compor parte do material indispensável para a edificação e evolução do conhecimento e da consciência, proporcionando-nos seu funcionamento. Sem tais elementos, é mesmo difícil imaginar a vida. As ficções são altamente individuais.
Considero portanto, que a consciência se constitui através de duas maneiras, geralmente consideradas. Ela pode manifestar-se como consciência crítica, cética ou analítica, em geral anti-dogmática, sendo a epoché - suspensão de juízos de valor - o máximo a que conseguimos chegar com este tipo de investida. (Eu costumava chamar isso de "lógica pura").Segundo esta perspectiva, quem quer que se aventure a pronunciar algo estará absolutamente em erro, visto que a estruturação cognitiva sempre está mesclada de pré-juízos, vontades, antecipações, forçamentos.Este tipo de filosofia todavia, parece empreender seu conhecimento por vigília, por negação e reprimenda aos saberes poéticos, tornando-se ocupada em vigiar suas próprias construções (auto-crítica) e as dos outros. Ela pode facilmente criar uma tirania da razão pura. Um império cético.
Este tipo de pensamento, tende a considerar filósofos aqueles que chegam a perceber que objetivamente o conhecimento é nada. Aqueles que se deparam com sua "razão crítica não indutiva", puramente crítica, e que não querem - nunca quiseram - propor conhecimentos. Lançaram-se um dia simplesmente a uma pesquisa lógica, de cunho analítico, com uma intenção de imparcialidade. Há aí o privilégio da via analítica, estrutural da filosofia, do conhecimento por reflexão ponderada entre termos, entre antinomias, entre a dialética do mundo, do dia-a-dia, dos momentos diversos que constituem a vida.Contudo, a filosofia (consciência) também pode - e esta é sua segunda maneira geral de manifestação - usando da imaginação, tecer inumeráveis hipóteses (antecipadas à experiência e ao conceito) sobre qualquer coisa, onde a poética, o livre - imaginar, o juízo hipotético (e não sua suspensão) são as próprias asas, a própria fonte do sentido. Esta é uma forma propositora de filosofia, que anima-se em formular hipóteses. Aí se manifesta a invenção da metafísica. Na necessidade constante de preencher o vazio constatado pela razão crítica, que observa a "falta de um sentido prévio e dado" na vida.
Temos aí duas formas de pensar, dois modos gerais de manifestação da consciência que, contudo, mesclam-se para produzir a ciência, a consciência. Se a primeira é radical, cética e crítica, a segunda é sonhadora, nada crítica e in-consequente; isto é, suas construções não advém de conseqüências lógicas, mas de um tipo de criação conceitual, onde não são necessárias premissas. Colocam-se deliberadamente premissas.
A própria possibilidade de propor conceitos e levá-los adiante está submetida a essas duas naturezas. A estruturação de sentidos por exemplo.Acho que estas são descrições que situam a compreensão de boa parte da estrutura da consciência humana como é hoje praticada.Elas fazem parte de minha tentativa de fornecer um organograma contemporâneo para a filosofia.
C. Veronese
segunda-feira, novembro 19
O Pensamento de Giordano Bruno

"O Cosmo... é eterno, infinito. A Terra é um dos mundos, e nós, que estamos sobre ele, giramos ao redor do Sol sem perceber. Os astros estão ligados às pequenas coisas da Terra. A Lua às marés, à menstruação das mulheres, o sol dá vida às plantas, a nós seres humanos... Se isto é verdade, e é verdade, Deus não está no alto, fora do mundo, mas em cada partícula de matéria, inerte ou viva. Deus é a própria matéria."
"Uma nova concepção do Universo deve corresponder a uma nova concepção do Homem."
''Que ingenuidade, pedir aos que têm poder para que mudem o poder.''
"Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse o arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse um fato, ninguém faria caso de mim, raros me observariam, poucos me censurariam, e facilmente poderia agradar a todos. Mas, por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da actividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber porque isto acontece, digo-vos que a razão é que tudo me desagrada, que detesto o vulgo, a multidão não me contenta, e só uma coisa me fascina: aquela, em virtude da qual me sinto livre em sujeição, contente em pena, rico na indigência e vivo na morte; em virtude da qual não invejo aqueles que são servos na liberdade, que sentem pena no prazer, são pobres na riqueza e mortos em vida, pois que têm no próprio corpo a cadeia que os acorrenta, no espírito o inferno que os oprime, na alma o error que os adoenta, na mente o letargo que os mata, não havendo magnanimidade que os redima, nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive. Daí, sucede que não arredo o pé do árduo caminho, por cansado; nem retiro as mãos da obra que se me apresenta, por indolente; nem qual desesperado, viro as costas ao inimigo que se me opõe, nem como deslumbrado, desvio os olhos do divino objeto: no entanto, sinto-me geralmente reputado a um sofista, que mais procura parecer subtil do que ser verídico; um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que por consolidar a antiga e verdadeira; um trapaceiro que procura o resplendor da glória impingindo as trevas dos erros; um espírito inquieto que subverte os edifícios da boa disciplina. Oxalá, Senhor, que os santos numes afastem de mim todos aqueles que injustamente me odeiam; oxalá que me seja sempre propício o meu Deus; oxalá que me sejam favoráveis todos os governantes do nosso mundo; oxalá que os astros me tratem tal como à semente, de maneira que apareça no mundo algum fruto útil e glorioso do meu labor, acordando o espírito e abrindo o sentimento àqueles que não têm luz e intelecto; pois, em verdade, eu não me entrego a fantasias, e se erro, julgo não errar intencionalmente; falando e escrevendo, não disputo por amor da vitória em si mesma (pois que todas as reputações e vitórias considero inimigas de Deus, abjectas e sem sombra de honra, se não assentarem na verdade), mas por amor da verdadeira sapiência e fervor da verdadeira especulação me afadigo, me apoquento, me atormento. É isto que irão comprovar os argumentos de demonstração, baseados em raciocínios válidos que procedem de um juízo recto, informado por imagens não falsas, que, como verdadeiras embaixadoras, àqueles que as procuram, patentes àqueles que as miram, claras para todo aquele que as aprende, certas para todo aquele que as compreende. Apresento-vos agora a minha especulação acerca do infinito, do universo e dos mundos inumeráveis."Ao ouvir sua sentença de morte, Giordano Bruno, aos 17 de fevereiro de 1600, disse aos seus algozes: "Maiori forsan cum timore sententiam in me fertis, quam ego accipiam", ou seja, Talvez sintam maior temor em sacrificar-me, sentenciando-me, do que eu, em aceitar"
terça-feira, novembro 13
Tributo a Che

"(...) atuo como penso, e, com certeza, fui leal com as minhas convicções. Cresçam como bons revolucionarios. Estudem muito para dominar a técnica que permite dominar a técnica da natureza. Lembrem-se que a revolução é o importante, e que CADA UM DE NÓS, SOZINHO, NÃO VALE NADA. Acima de tudo, sejam sempre capazes de sentir no mais fundo qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a melhor qualidade de um revolucionário."
"Nasci na Argentina; não é segredo para ninguém. Sou cubano e também sou argentino, se não se ofenderem os ilustríssimos latino-americanos, me sinto tão patriota da América-Latina, de qualquer país da América-Latina, como qualquer outro e, no momento em que fosse necessário, estaria disposto a entregar minha vida pela libertação de qualquer um dos países latino-americanos, sem pedir nada a ninguém, sem exigir nada, sem explorar ninguém..."
"O socialismo não é uma sociedade beneficente, não é um regime utópico, baseado na bondade do homem como homem. O socialismo é um regime a que se chega historicamente e que tem por base a socialização dos bens fundamentais de produção e a distribuição equitativa de todas as riquezas da sociedade, numa sitação de produção social. Isto é,a produção criada pelo capitalismo: as grandes fábricas, a grande pecuária capitalista, a grande agricultura capitalista, os locais onde o trabalho humano era feito em comunidade, em sociedade; mas naquela época o aproveitamento do fruto do trabalho era feito pelos capitalistas individialmente, pela classe exploradora, pelos proprietários jurídicos dos bens de produção."
Che Guevara
quinta-feira, novembro 8
Quem Morre?

Morre lentamente
Quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo
Morre lentamente
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito
Repetindo todos os dias os mesmos trajeto,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou
Não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos e os corações aos tropeços.
Morre lentamente
Quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos...
Viva hoje !
Arrisque hoje !
Faça hoje !
Não se deixe morrer lentamente !
NÃO SE ESQUEÇA DE SER FELIZ
Pablo Neruda
segunda-feira, outubro 15
As pessoas ainda não foram terminadas

Porque nosso DNA é incompleto, inventamos poesia, culinária...
Rubem Alves
As diferenças entre um sábio e um cientista? São muitas e não posso dizer todas. Só algumas. O sábio conhece com a boca, o cientista, com a cabeça. Aquilo que o sábio conhece tem sabor, é comida,conhecimento corporal. O corpo gosta. A palavra "sapio", em latim, quer dizer "eu degusto"... O sábio é um cozinheiro que faz pratos saborosos com o que a vida oferece. O saber do sábio dá alegria, razões paraviver. Já o que o cientista oferece não tem gosto, nãomexe com o corpo, não dá razões para viver. O cientista retruca: "Não tem gosto, mas tem poder"... É verdade. O sábio ensina coisas do amor. O cientista, do poder. Para o cientista, o silêncio é o espaço da ignorância.Nele não mora saber algum; é um vazio que nada diz. Para o sábio o silêncio é o tempo da escuta, quando se ouve uma melodia que faz chorar, como disse Fernando Pessoa num dos seus poemas. Roland Barthes, já velho,confessou que abandonara os saberes faláveis e se dedicava, no seu momento crepuscular, aos sabores inefáveis. Outra diferença é que para ser cientista há de se estudar muito, enquanto para ser sábio não é preciso estudar. Um dos aforismos do Tao-Te-Ching diz o seguinte: "Na busca dos saberes, cada dia alguma coisa é acrescentada. Na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada". O cientista soma. O sábio subtrai. Riobaldo, ao que me consta, não tinha diploma. E, não obstante, era sábio. Vejam só o que ele disse: "O senhor mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando..." É só por causa dessa sabedoria que há educadores. A educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. O educador ajuda os outros a irem mudando no tempo. Eu mesmo já mudei nem sei quantas vezes. As pessoas da minha geração são as que viveram mais tempo, não pelo número de anos contados pelos relógios e calendários, mas pela infinidade de mundos por que passamos num tempo tão curto. Nos meus 74 anos, meu corpo e minha cabeça viajaram do mundo da pedra lascada e da madeira- monjolo, pilão, lamparina - até o mundo dos computadores e da internet. Os animais e plantas também mudam, mas tão devagar que não percebemos. Estão prontos. Abelhas, vespas, cobras, formigas, pássaros, aranhas são o que são e fazem o que fazem há milhões de anos. Porque estão prontos, não precisam pensar e não podem ser educados. Sua programação, o tal de DNA, já nasce pronta. Seus corpos já nascem sabendo o que precisam saber paraviver. Conosco aconteceu diferente. Parece que, ao nos criar,o Criador cometeu um erro (ou nos pregou uma peça!): deu-nos um DNA incompleto. E porque nosso DNA é incompleto somos condenados a pensar. Pensar para quê? Para inventar a vida! É por isso, porque nosso DNA é incompleto, que inventamos poesia, culinária, música, ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos a que se dá o nome de cultura. Pra isso existem os educadores: para cumprir o dito do Riobaldo... Uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para "desigualizar" as pessoas e fazer outros mundos nascerem...
segunda-feira, outubro 8
O Nascimento da Loucura...

"(...)meu nascimento não foi anunciado por meu choro; assim que vim ao mundo, viram-me sorrir graciosamente para minha mãe, a ninfa Neotetes, a Juventude. Seria um grande erro eu invejar a Júpiter a felicidade de ter sido amamentado por uma cabra, pois as duas ninfas mais graciosas do mundo, Mete, a Embriaguez, filha de Baco, e Apédia, a Ignorância, filha de Pã, foram minhas amas-de-leite. Podeis vê-las aqui entre minhas seguidoras.
A propósitos de minhas seguidoras, convêm que vo-las apresente. A que vos observa li com um ar arrogante é o Amor-Próprio. A outra, com um rosto afávele as mãos prontas para apludir, é a Adulação. Aqui vedes a deusa do Esquecimento, que adormece e parece já esquecida . Mais adiante, a Preguiça tem os braços cruzados e apoiados sobre os cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, por suas guirlandas, suas coroas de rosas, e pelas essências deliciosas com que se perfuma? Não notais que a que passeia a toda volta seus olhares imprudentes e incertos? é a Demência. Aquela outra, de pele luzente, corpo abundante e rechonchudo, é a deusa das Delícias. Mas também percebeis dois deuses em meio a essas deusas. Um é Como* e o outro é Morfeu**.
É com o auxilio desses servidores fiéis que submeto a meu império tudo o que existe no universo; é através deles que governo os que governam o mundo."
A propósitos de minhas seguidoras, convêm que vo-las apresente. A que vos observa li com um ar arrogante é o Amor-Próprio. A outra, com um rosto afávele as mãos prontas para apludir, é a Adulação. Aqui vedes a deusa do Esquecimento, que adormece e parece já esquecida . Mais adiante, a Preguiça tem os braços cruzados e apoiados sobre os cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, por suas guirlandas, suas coroas de rosas, e pelas essências deliciosas com que se perfuma? Não notais que a que passeia a toda volta seus olhares imprudentes e incertos? é a Demência. Aquela outra, de pele luzente, corpo abundante e rechonchudo, é a deusa das Delícias. Mas também percebeis dois deuses em meio a essas deusas. Um é Como* e o outro é Morfeu**.
É com o auxilio desses servidores fiéis que submeto a meu império tudo o que existe no universo; é através deles que governo os que governam o mundo."
*Como: Deus grego que preside os prazeres da mesa
** Morfeu: personificação do sono e do sonho
** Morfeu: personificação do sono e do sonho
sábado, setembro 22
QUE É FILOSOFIA

Olavo de Carvalho
Zero Hora, 17 de outubro de 2004
Toda filosofia nasce de um impulso originário – infantil, se quiserem -- de entender a realidade da experiência. Mas, entre esse impulso e a “filosofia” como atividade curricular acadêmica, a distância é às vezes tão grande que ele desaparece por completo.
As desculpas para isso são sempre as mais respeitáveis. Antes de responder às perguntas da infância é preciso adquirir os instrumentos intelectuais do saber adulto, o que inclui o estudo das obras dos filósofos; este estudo supõe o domínio da interpretação de textos; e a interpretação de textos pode ser tão interessante que se torna um pólo de atração independente. Eis-nos então nos píncaros do saber filosófico acadêmico, ao menos no sentido franco-uspiano do termo, e imunizados para sempre às perguntas que nos levaram, pela primeira vez, ao estudo da filosofia. Na USP dos anos 60, que não parece ter mudado muito desde então, qualquer tentativa de enfrentar essas perguntas em vez de ocupar-se da nobre tarefa da análise de textos era desprezada como amadorismo, beletrismo, ensaísmo. Quando o prof. José Arthur Gianotti, no auge da sua maturidade intelectual, define a filosofia como uma ocupação com textos, ele não faz senão expressar sua experiência de algo que, no ambiente da sua formação, recebia o nome de “filosofia”, mas que jamais seria reconhecido como tal por Sócrates e Platão.
Platão -- ou Sócrates -- mostrava um caminho para a filosofia que jamais poderia ser encontrado num texto. Ele falava de uma anamnesis, de um mergulho na memória pessoal em busca do instante do nascimento da consciência filosófica. A consciência filosófica era a antevisão das formas universais eternas. Essas formas transcendiam infinitamente a esfera da experiência corporal, portanto também da memória sensível, mas, em algum momento esquecido do tempo, haviam se entremostrado nela e despertado, na alma do indivíduo carnal, a aspiração do Bem supremo. No curso posterior da vida, a maioria dos homens se esquecia desse momento para sempre. Em outros, a ocultação era parcial. Se o objeto experienciado desaparecia da consciência, a aspiração a que ele dera nascimento permanecia viva. Viva, mas buscando satisfação a esmo em objetos impróprios, errando entre símbolos e simulacros até atinar -- ou não -- com o caminho de volta. O encontro do aprendiz com o filósofo maduro era um momento decisivo dessa busca. O filósofo atraía os discípulos porque algo, nele, evocava o Bem supremo. O filósofo era um símbolo. O discípulo podia agarrar-se a ele como a qualquer outro símbolo, adorando-o ao ponto de desejar possuí-lo carnalmente. É o que Alcebíades, após a noitada do Banquete, confessa a Sócrates. Mas Sócrates lhe explica que ele está buscando na direção errada. O que move a alma do discípulo é o desejo de um bem espiritual esquecido, que a carne de Sócrates não pode satisfazer. O filósofo é um símbolo do Bem e não o próprio Bem. Nesse sentido, ele não é diferente de qualquer outro símbolo. Mas ele não é apenas símbolo. Ele não se limita a representar exteriormente o Bem, como a beleza material o representa sem saber o que faz. Ele é um registro consciente daquele Bem que ele próprio simboliza. Ele é o homem que realizou a anamnesis e descobriu na própria alma a abertura para o Bem. Por isso ele pode ensinar a Alcebíades o caminho de volta, mostrar que esse caminho não se encontra no corpo de Sócrates, e sim na alma de Alcebíades. Ele convida o discípulo à metanóia, ao giro da direção da atenção desde fora para dentro, desde a atualidade dos sinais sensíveis para a escuridão da memória, em cujo fundo brilha, escondida, a recordação da abertura primordial para a experiência do Bem e das formas eternas.
A análise infindável de textos é uma longa deleitação viciosa no corpo dos símbolos, um derivativo carnal que afasta para sempre da recordação do Bem ao mesmo tempo que crê piamente “fazer filosofia”. Foi isso que ensinaram ao prof. Gianotti com o nome de “filosofia”. Mas não era isso o que Sócrates e Platão ensinavam.
Toda filosofia nasce de um impulso originário – infantil, se quiserem -- de entender a realidade da experiência. Mas, entre esse impulso e a “filosofia” como atividade curricular acadêmica, a distância é às vezes tão grande que ele desaparece por completo.
As desculpas para isso são sempre as mais respeitáveis. Antes de responder às perguntas da infância é preciso adquirir os instrumentos intelectuais do saber adulto, o que inclui o estudo das obras dos filósofos; este estudo supõe o domínio da interpretação de textos; e a interpretação de textos pode ser tão interessante que se torna um pólo de atração independente. Eis-nos então nos píncaros do saber filosófico acadêmico, ao menos no sentido franco-uspiano do termo, e imunizados para sempre às perguntas que nos levaram, pela primeira vez, ao estudo da filosofia. Na USP dos anos 60, que não parece ter mudado muito desde então, qualquer tentativa de enfrentar essas perguntas em vez de ocupar-se da nobre tarefa da análise de textos era desprezada como amadorismo, beletrismo, ensaísmo. Quando o prof. José Arthur Gianotti, no auge da sua maturidade intelectual, define a filosofia como uma ocupação com textos, ele não faz senão expressar sua experiência de algo que, no ambiente da sua formação, recebia o nome de “filosofia”, mas que jamais seria reconhecido como tal por Sócrates e Platão.
Platão -- ou Sócrates -- mostrava um caminho para a filosofia que jamais poderia ser encontrado num texto. Ele falava de uma anamnesis, de um mergulho na memória pessoal em busca do instante do nascimento da consciência filosófica. A consciência filosófica era a antevisão das formas universais eternas. Essas formas transcendiam infinitamente a esfera da experiência corporal, portanto também da memória sensível, mas, em algum momento esquecido do tempo, haviam se entremostrado nela e despertado, na alma do indivíduo carnal, a aspiração do Bem supremo. No curso posterior da vida, a maioria dos homens se esquecia desse momento para sempre. Em outros, a ocultação era parcial. Se o objeto experienciado desaparecia da consciência, a aspiração a que ele dera nascimento permanecia viva. Viva, mas buscando satisfação a esmo em objetos impróprios, errando entre símbolos e simulacros até atinar -- ou não -- com o caminho de volta. O encontro do aprendiz com o filósofo maduro era um momento decisivo dessa busca. O filósofo atraía os discípulos porque algo, nele, evocava o Bem supremo. O filósofo era um símbolo. O discípulo podia agarrar-se a ele como a qualquer outro símbolo, adorando-o ao ponto de desejar possuí-lo carnalmente. É o que Alcebíades, após a noitada do Banquete, confessa a Sócrates. Mas Sócrates lhe explica que ele está buscando na direção errada. O que move a alma do discípulo é o desejo de um bem espiritual esquecido, que a carne de Sócrates não pode satisfazer. O filósofo é um símbolo do Bem e não o próprio Bem. Nesse sentido, ele não é diferente de qualquer outro símbolo. Mas ele não é apenas símbolo. Ele não se limita a representar exteriormente o Bem, como a beleza material o representa sem saber o que faz. Ele é um registro consciente daquele Bem que ele próprio simboliza. Ele é o homem que realizou a anamnesis e descobriu na própria alma a abertura para o Bem. Por isso ele pode ensinar a Alcebíades o caminho de volta, mostrar que esse caminho não se encontra no corpo de Sócrates, e sim na alma de Alcebíades. Ele convida o discípulo à metanóia, ao giro da direção da atenção desde fora para dentro, desde a atualidade dos sinais sensíveis para a escuridão da memória, em cujo fundo brilha, escondida, a recordação da abertura primordial para a experiência do Bem e das formas eternas.
A análise infindável de textos é uma longa deleitação viciosa no corpo dos símbolos, um derivativo carnal que afasta para sempre da recordação do Bem ao mesmo tempo que crê piamente “fazer filosofia”. Foi isso que ensinaram ao prof. Gianotti com o nome de “filosofia”. Mas não era isso o que Sócrates e Platão ensinavam.
domingo, setembro 16
Algumas doses de Pablo Neruda

Todos os caminhos conduzem ao mesmo objetivo:
comunicar aos outros o que somos.
Devemos atravessar a solidão e a dificuldade,
o isolamento e o silêncio, a fim de chegar ao local encantado
onde podemos dançar nossa dança desajeitada
e cantar nossa canção Melancólica
mas nessa dança ou nessa canção
são cumpridos os ritos mais antigos de nossa consciência,
na percepção de sermos humanos
e de cremos em um destino comum.
Pablo Neruda,1971
domingo, setembro 9
Luciano Pavarotti

Poucos na história da humanidade souberam fazer do erudito algo tão popular... poucos são os que quebram paradigmas artítiscos e continuam com prestígio entre ambas as classes sociais... poucos fazem do humano algo tão divino...
Nessun Dorma
(Tradução)
Ninguém durma
Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança
Mas meu mistério está fechado em mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, só o direi na sua boca
Quando a luz brilhar
E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha
O seu nome ninguém saberá
E nós teremos, oh!, que morrer, morrer
Parta, oh noite
Esvaneçam, estrelas
Esvaneçam, estrelas
Ao amanhecer eu vencerei!
Vencerei! Vencerei!
sábado, setembro 8
Os Idiotas Confessos
Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.
Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Uma santa! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc.
Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.
E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.
Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.
Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.
De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.
Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.
Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.
E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Virgem Maria, será exatamente o fim.
É o que está acontecendo. Nem se pense que a “invasão dos idiotas” só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — “Subdesenvolvimento” — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.
Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).
Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.
Cabe então a pergunta: — “O dr. Alceu pensa assim?”. Não. Em outra época, foi um dos “melhores”. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.
Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Uma santa! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc.
Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.
E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.
Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.
Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.
De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.
Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.
Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.
E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Virgem Maria, será exatamente o fim.
É o que está acontecendo. Nem se pense que a “invasão dos idiotas” só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — “Subdesenvolvimento” — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.
Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).
Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.
Cabe então a pergunta: — “O dr. Alceu pensa assim?”. Não. Em outra época, foi um dos “melhores”. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.
[19/8/1968]
In Rodrigues, Nelson. A cabra vadia: novas confissões. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 210.
Nelson e Filosofia, por Luciano Torcione

Em 1988 as obras de cronicas e memórias eram dificeis de encontrar nos sebos, e fui ler na biblioteca nacional, enquanto estudava filosofia no largo de são francisco. E no reacionário, em a cabra vadia, no óbvio ululante, encontrei sabedoria relacionável, por um espírito independente, aos temas maiores e menores da filosofia e seus autores.
Nas memórias transparece a erudição, e o que pretendo destacar, a sabedoria aplicada, o uso não meramente citacional, a capacidade de absorver e dialogar com aqueles grandes nomes da história da literatura. De tal modo que um filósofo demasiado acadêmico não será capaz de ver esta sabedoria e este estilo aplicados e absorvidos; e, pior, não se sentirá autorizado a reconhece-los em situações aplicadas e cronificadas, ambientadas. Somente um filósofo seguro e capaz de leitura prática e tambem de autoria, poderá reconhecer para todos os outros, sem autoridade e sem autoria, o que sente-se ao ler Nelson.
Se permitem, refiro três autores: Scott Fitzgerald, Nietzsche e Parmênides. Este último dá o âmbito - há dois tipos de verdade: a que está no que é dito, no que se diz; e a que sabemos com o coração. Nelson ouvia sobremaneira, e nos garantia acesso direto ao coração. Passando por riso nervoso, gargalhada, olhos cheios d`água.
Ainda como dificuldade para o intelectual, para reconhecê-lo como filósofo, acrescento em seguida Scott Fitzgerald: em carta para a filha de doze anos, Scottie (depois jornalista), prescreve leitura mensal de um clássico da literatura, ao longo do ano: "como foi com Dickens este mês? - a menos que absorva o estilo, fará apenas citações deslavada (watered-down)". Assim Nelson absorveu os grandes, não os cita, e nos transmite e nos transfere a eles, ampliando exponencialmente a ressonância de suas notas.
Terceiro, expondo ainda esta grandeza de Nelson filósofo e as dificuldades de se ver inicialmente isso, acrescentaria Nietzsche: a psicologia esteve antes e sempre nos autores clássicos - nos maiores, e nos menores. Reconhecê-los e inclui-los no pensamento filosófico é ainda uma necessidade, exigência recíproca da arte ao pensamento; e, uma agudeza para o psicológico, uma capacidade de dizer em poucas linhas o que os outros demoram em páginas, esta atenção ao valor e ao desejo, são as características que identificam Nietzsche a Nelson. E o próprio Nelson: "Se me perguntarem sobre o que fiz de marcante (...) sim, destaquei o óbvio"(Nelson, em O Óbvio ululante).
O óbvio como categoria de pensamento, conceito criado por Nelson, é a atividade própria do filósofo segundo Deleuze: fabricar conceitos. O óbvio, por outro lado, no pensamento, liga-se diretamente à mobilidade psíquica das meditações dinâmicas, presentes no budismo theravada (parente menos badalado do budismo zen, cuja meditação ocorre em tema fixo, e que nos lega parte da imagem associável ao que seja pensamento oriental). Do óbvio espalham e enraizam-se as implicitudes e os assentimentos (noção filosófica estóica) e os assentamentos, que subestruturam os valores e as emocionabilidades abaladoras. Nova grandeza - e nova dificuldade - e inaugurabilidade.
Assim como Sérgio Britto, em entrevista, aguarda uma fantástica ampliação de Nelson, assim esperamos quanto à filosofia - ou pensamento - em Nelson Rodrigues.
Nas memórias transparece a erudição, e o que pretendo destacar, a sabedoria aplicada, o uso não meramente citacional, a capacidade de absorver e dialogar com aqueles grandes nomes da história da literatura. De tal modo que um filósofo demasiado acadêmico não será capaz de ver esta sabedoria e este estilo aplicados e absorvidos; e, pior, não se sentirá autorizado a reconhece-los em situações aplicadas e cronificadas, ambientadas. Somente um filósofo seguro e capaz de leitura prática e tambem de autoria, poderá reconhecer para todos os outros, sem autoridade e sem autoria, o que sente-se ao ler Nelson.
Se permitem, refiro três autores: Scott Fitzgerald, Nietzsche e Parmênides. Este último dá o âmbito - há dois tipos de verdade: a que está no que é dito, no que se diz; e a que sabemos com o coração. Nelson ouvia sobremaneira, e nos garantia acesso direto ao coração. Passando por riso nervoso, gargalhada, olhos cheios d`água.
Ainda como dificuldade para o intelectual, para reconhecê-lo como filósofo, acrescento em seguida Scott Fitzgerald: em carta para a filha de doze anos, Scottie (depois jornalista), prescreve leitura mensal de um clássico da literatura, ao longo do ano: "como foi com Dickens este mês? - a menos que absorva o estilo, fará apenas citações deslavada (watered-down)". Assim Nelson absorveu os grandes, não os cita, e nos transmite e nos transfere a eles, ampliando exponencialmente a ressonância de suas notas.
Terceiro, expondo ainda esta grandeza de Nelson filósofo e as dificuldades de se ver inicialmente isso, acrescentaria Nietzsche: a psicologia esteve antes e sempre nos autores clássicos - nos maiores, e nos menores. Reconhecê-los e inclui-los no pensamento filosófico é ainda uma necessidade, exigência recíproca da arte ao pensamento; e, uma agudeza para o psicológico, uma capacidade de dizer em poucas linhas o que os outros demoram em páginas, esta atenção ao valor e ao desejo, são as características que identificam Nietzsche a Nelson. E o próprio Nelson: "Se me perguntarem sobre o que fiz de marcante (...) sim, destaquei o óbvio"(Nelson, em O Óbvio ululante).
O óbvio como categoria de pensamento, conceito criado por Nelson, é a atividade própria do filósofo segundo Deleuze: fabricar conceitos. O óbvio, por outro lado, no pensamento, liga-se diretamente à mobilidade psíquica das meditações dinâmicas, presentes no budismo theravada (parente menos badalado do budismo zen, cuja meditação ocorre em tema fixo, e que nos lega parte da imagem associável ao que seja pensamento oriental). Do óbvio espalham e enraizam-se as implicitudes e os assentimentos (noção filosófica estóica) e os assentamentos, que subestruturam os valores e as emocionabilidades abaladoras. Nova grandeza - e nova dificuldade - e inaugurabilidade.
Assim como Sérgio Britto, em entrevista, aguarda uma fantástica ampliação de Nelson, assim esperamos quanto à filosofia - ou pensamento - em Nelson Rodrigues.
Luciano Torcione é leitor do site Nelson Rodrigues e defende a importância da discussão de filosofia
O Amor por Nelson Rodrigues

O que é amor?
Nelson, para você, o que é amor?
Sou uma das raras pessoas das minhas relações que acredita no amor eterno. Já escrevi mil vezes: todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. O amor não morre - vivo eu dizendo. Morre o sentimento que é, apenas uma imitação do amor muitas vezes uma maravilhosa imitação do amor.
Diz Oswaldinho, na minha peça Anti-Nelson Roddrigues: “Quando eu a vi, senti que não era a primeira vez, que eu a conhecia de vidas passadas.” Isso quer dizer que só quem ama conhece a eternidade. Isso é romantismo de maneira despudorada. Isso é amor. Sou uma alma da Belle Époque e de vez em quando me pergunto o que é que estou fazendo em 1974.
Nelson, para você, o que é amor?
Sou uma das raras pessoas das minhas relações que acredita no amor eterno. Já escrevi mil vezes: todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. O amor não morre - vivo eu dizendo. Morre o sentimento que é, apenas uma imitação do amor muitas vezes uma maravilhosa imitação do amor.
Diz Oswaldinho, na minha peça Anti-Nelson Roddrigues: “Quando eu a vi, senti que não era a primeira vez, que eu a conhecia de vidas passadas.” Isso quer dizer que só quem ama conhece a eternidade. Isso é romantismo de maneira despudorada. Isso é amor. Sou uma alma da Belle Époque e de vez em quando me pergunto o que é que estou fazendo em 1974.
Mas Nelson, não haverá má fé inconsciente na idéia de que se o amor não é eterno ele não era amor?
O amor eterno pode parecer, de fato, uma justificativa de todas as infidelidades. Procurando o seu amor eterno, o homem não seria fiel a ninguém. Acontece que eu já confessei que nunca fui fiel e considero isso uma mácula que tenho quase como um estigma físico. Mas conheço vários casos de amor eterno.
Um deles: o de meu irmão Mário pela minha cunhada Célia. Morreu Mário e Célia matou-se, para segui-lo. Outro caso: O da minha tia Iaiá pelo meu tio Chico. Este era por assim dizer um bêbado nato e hereditário. Mesmo sem beber, continuava embriagado. Era um homem que, nas suas crises de alcoólatra, enfrentava a polícia montada, derrubando cavalos e enfrentando a multidão. Mas era só Iaiá aparecer para que aquele possesso, de repente e mansamente, saísse atrás dela. Nunca Chico elevou a voz para Iaiá. Sempre foi o homem magnetizado pelo amor: era diante dela um menino patético e tão órfão. Aos 80 anos, ele era um namorado bêbado, mas namorado. E assim ele morreu e assim ela morreu com o amor que continua para além da vida e para além da morte, como Mário e Célia.
E o sexo, não faz parte do amor?
Eu acho o sexo uma coisa tranqüilamente maldita, a não ser quando se dá este acontecimento inacreditável, do sujeito encontrar o amor. Mas um sujeito precisa de quinze encarnações para viver um momento de amor. Porque a mulher amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, a cruzar o nosso caminho. De forma que encontrar a mulher amada é um cínico e deslavado milagre. Então o sujeito não tem o direito de usar o sexo a não ser por amor. E dizer que isto é uma necessidade é uma das maiores burrices que se pode imaginar, porque a gente argumenta, quando fala nesta necessidade, como se o homem fosse o Boogie Woogie, um cachorro da vizinhança que namorava uma cadelinha que eu tinha. O Boogie-Woogie, em certo período, vinha para o meio da rua e ali ficava, os carros passando e o atropelando, e ele lá, firme, enquanto a cadelinha, presa na varanda, ficava olhando. O Boogie-Woogie sim, precisava. Nós não: precisamos é de amor. Eu digo isto como um homem que usou com certa freqüência e que criou esta falsa necessidade de uma atividade sexual normal, que eu não considero normal coisíssima nenhuma.
Eu acho o sexo uma coisa tranqüilamente maldita, a não ser quando se dá este acontecimento inacreditável, do sujeito encontrar o amor. Mas um sujeito precisa de quinze encarnações para viver um momento de amor. Porque a mulher amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, a cruzar o nosso caminho. De forma que encontrar a mulher amada é um cínico e deslavado milagre. Então o sujeito não tem o direito de usar o sexo a não ser por amor. E dizer que isto é uma necessidade é uma das maiores burrices que se pode imaginar, porque a gente argumenta, quando fala nesta necessidade, como se o homem fosse o Boogie Woogie, um cachorro da vizinhança que namorava uma cadelinha que eu tinha. O Boogie-Woogie, em certo período, vinha para o meio da rua e ali ficava, os carros passando e o atropelando, e ele lá, firme, enquanto a cadelinha, presa na varanda, ficava olhando. O Boogie-Woogie sim, precisava. Nós não: precisamos é de amor. Eu digo isto como um homem que usou com certa freqüência e que criou esta falsa necessidade de uma atividade sexual normal, que eu não considero normal coisíssima nenhuma.
terça-feira, agosto 28
Cavaleiros do Apocalipse

Ultimamente estou observando muito certas mensagens sobre o fim dos tempos... hehehe... verdade... sobre ofim dos tempos daquilo que diz respeito, obviamente, ao Cavaleiro do Apocalipse que anuncia o grande, cataclisma!!! trocamos notícias diariamente na internet via email, blog, orkut, etc... isso é bom, e tem surtido frutos afinal denunciar é preciso... muitas das notícias que propagamos de certo modo esta fora de nosso âmbito uma atitude mais direta, de qualquer modo a indignação e conscientização já é um grande passo nesses casos. Contudo tem notícias que nos dizem respeito de forma direta, e pior, temos meios para agir contra e o que fazemos? Aí entra os tais"Cavaleiros do Apocalipse" que anunciam tristemente o fim próximo e nada fazem evita-lo!!!
Tudo isso tem me servido de reflexão pessoal para ver se não me encaixo também nesses Cavaleiros do Apocalipse, e me envergonho com a hipótese de viver uma filosofia individualista da qual só entra em palco diante de questões atingem somente a mim (exemplo: minha vida profissional corre perigo então agora sim vou militar, mas de forma bem morna pois afinal tenho minhas contas a pagar).
Isso não é nenhuma indireta a nenhum dos colegas que recebem esses emails... isso é antes de tudo uma realidade geral da qual muitas vezes faço parte. Deixo perguntas... do que serve essa tal razão se na maioria esmagadora das vezes ela é escrava das minhas vontades? Será que a pólis (cidade) é realmente maior das utopias?
É triste ter que admitir que a letra da música abaixo parece mais um sonho infantil desprovido do tal realismo paralisante que substitui a palavra humanidade por indivíduo (ou simplesmente EU)
"Nesta fantasia eu vejo um mundo justo
Ali todos vivem em paz e em honestidade
O sonho das almas que são sempre livres
Como as nuvens que voam
Cheias de humanidade dentro da alma
Na fantasia eu vejo um mundo claro
Lá também a noite é menos escura
Eu sonho que as almas são sempre livres
Como nuvens que voam
Na fantasia existe um vento quente
Que sopra pela cidade como amigo
Eu sonho que as almas são sempre livres
Como nuvens que voam
Cheias de humanidade no fundo da alma"
(Tema do filme "A Missão")
Paradoxal é pensar que essa letra pode parecer completamente rídicula e ingênua justamente para pessoas que crêem firmemente em um parceiro(a) eterno(a) ou mesmo que é posssível ganhar na mega-sena, ou seja, os sonhos no campo do individual é realização!!! agora no campo do coletivo é ingenuidade??? Será que Hobbes tinha mesmo razão em definir o homem como um átomo de egoísmo??? Mas ele ainda tinha fé que a sociedade educaria o homem por causas mais nobres do que realizações próprias!!!
domingo, agosto 26
Síntaxe à Vontade

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto ou indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a crase, nem a frase, nem a vírgula e ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
e estar entre vírgulas pode ser aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua prece que a regência da paz sirva a todos nós...
cegos ou não que enxerguemos o fato de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não façamos parte do contexto.
sejamos todas as capas de edição especial
mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante
sejamos também a contra-capa
porque ser a capa e ser a contra-capa é a beleza da contradição
é negar a si mesmo e negar a si mesmo é muitas vezes,
encontrar-se com Deus com o teu Deus
sem horas e sem dores que nesse momento que cada um se encontra aqui
agora um possa se encontrar no outro, e o outro no uma
té porque... tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta tudo numa coisa só?
O Teatro Mágico
segunda-feira, agosto 6
Pã e Dionísio, os deuses selvagens

Atribui-se a muitos a paternidade de Pã. Evidentemente que foi mencionado também o irrequieto Zeus, mas até hoje ninguém sabe ao certo se foi ele. A verdade parece ser que Pã foi desprezado pelo pai por ser tão feio: mal feito e peludo, tinha chifres, barba, cauda e pés de cabra. Os outros deuses afastavam-se dele por causa do seu aspecto físico e não o consideravam um dos seus, embora pelo nascimento ele talvez fosse um deus e, segundo alguns, ainda mais antigo do que os velhos Titãs.
Pã não parecia importar-se muito, porque era um ser simples e sem ambições. Não aspirava às alturas do Olimpo e gostava de viver com os mortais na Arcádia, rio centro da Grécia do Sul. Esta era uma terra de largas planícies, entremeada de bosques e florestas. A norte existiam altas montanhas, onde Pã vivia a vida de pastor e guardador de gado, cuidando das suas ovelhas, cabras e abelhas. À noite juntava-se dom entusiasmo às festas das ninfas dos bosques e das colinas. Nessa altura tornava-se um pouco selvagem. Gostava imenso de se esconder entre as árvores quando passava um estranho, e assustá-lo com um grito repentino.
Pã pretendeu muitas ninfas, entre elas Sírinx, que fugiu horrorizada para as margens do rio Laden e se transformou em cana para lhe escapar. Incapaz de a distinguir entre tantas canas, Pã cortou um molho delas e fez as flautas com que ainda hoje o vemos.
Só quando a sua grande habilidade como flautista foi conhecida é que os deuses levaram Pã ao Olimpo por uns tempos para lhes ensinar a sua arte. Mas depressa percebeu pelos olhares de troça que não o chamavam senão por isso, e voltou outra vez à Arcádia e à sua vida anterior.
A história do deus Dioniso contrasta totalmente com a do modesto Pã. É uma história de loucuras, roubos e pilhagens, de um deus movido por forças que não conseguia controlar.
Zeus era pai de Dioniso, e a mãe era Sémele, filha do rei de Tiro. A ciumenta mulher de Zeus, Hera, destruiu Sémele com um raie, mas a titã Reia salvou o bebe e entregou-o aos cuidados do rei Átamas, de Tebas, c da sua mulher Ino. Para maior precaução, Dioniso andou sempre disfarçado de rapariga enquanto esteve com eles.
Apesar disso, Hera descobriu o seu paradeiro e enlouqueceu o casal, de forma que, num acesso de fúria, mataram o seu próprio filho,
Dioniso ainda não tinha sofrido nada, mas por ordem de Zeus, Hermes foi rapidamente a Tebas e transformou o rapaz numa cabra, para o esconder melhor. Depois Hermes levou Dioniso durante a noite para o monte Nise, onde as ninfas tomaram conta dele. Dioniso voltou à sua forma humana, mas ficaram-lhe para o resto da vida dois pequenos chifres, como os de um cabrito. Foi enquanto viveu na montanha que ele cultivou a primeira vide e fez uma vinha nas vertentes escarpadas do Sul. Plantava vides em todos os sítios para onde ia, e ficou conhecido como o deus do vinho.
Durante algum tempo tudo parecia correr bem, mas Hera não desistiu de procurar o rapaz e, por fim, encontrou-o. Sem a menor piedade, transtornou-lhe o cérebro, tal como tinha feito com Átamas e Ino, e ele ficou doido.
Dioniso rejeitou então todas as ninfas gentis que tinham tratado dele com tanto cuidado, e escolheu para companheiros os sátiros brutos e sem regras, guiados por Sileno e pelas Ménades As ménades eram mulheres selvagens, com os olhos brilhantes de maldade. Vestidas com peles de animais e armadas de espadas e serpentes, eram horríveis de ver e destruíam tudo o que lhes aparecesse pela frente.
Com o seu estranho bando, o jovem deus vagueou pelos mares, dando batalha e matando sem piedade todo aquele que se atravessasse no seu caminho. Primeiro visitou o Egito, onde as Amazonas se juntaram a ele para devolver o trono ao rei Ámon. Depois seguiu-se uma longa viagem por terra até à índia, onde se deram muitas batalhas sangrentas até toda a terra ser dominada. No Oriente, Dioniso viu muitas paisagens, costumes e animais desconhecidos nesse tempo na terra do seu nascimento, e levou com ele para a Europa os primeiros elefantes, que fizeram a admiração dos Ocidentais.
No regresso de Dioniso, Reia desafiou Hera e tentou livrar o rapaz da loucura, mas parece que era demasiado tarde. Apesar de um pouco mudado, Dioniso não desistiu do seu grupo de sátiros e de Ménades e da vida que faziam juntos. Tinha-se habituado à sua vocação comum, o amor da rebeldia e a vida selvagem, e ao vinho das vides que plantara e tratara.
Dioniso e o seu estranho exército, embora vivendo a combater, nem sempre ganhavam.
Licurgo derrotou-os completamente quando eles invadiram a Trácia, e embora Reia enlouquecesse Licurgo para salvar Dioniso, este apenas escapou à morte atirando-se ao mar, onde a ninfa Tétis o escondeu até passar o perigo.
De maneira mais pacífica, o deus do vinho e os companheiros visitaram Tebas, a principal cidade da Beócia, que fica a alguns dias de viagem a norte de Atenas, As pessoas eram calmas e reservadas, e embora tivessem tentado ser amigos ficaram ofendidos com o comportamento dos sátiros e das Ménades meio embriagados. O povo não viu com bons olhos as danças selvagens que duraram toda a noite na vertente do monte Citéron, por cima da cidade e ninguém pôde dormir por causa da música.
O rei de Tebas sabia que a um deus eram devidas certas liberdades, mas o seu povo sofrera bastante, pelo que mandou prender Dioniso e o seu bando. Mas antes que a ordem fosse executada, Dioniso enlouqueceu-o. Então os sátiros escaparam-se e alvoroçaram, pilharam e mataram por todo o país.
Deixando a Beócia numa confusão, Dioniso navegou para as ilhas Egeias. Dirigiu um navio a Naxos e esteve alguns dias no mar, quando a tripulação, duvidosa da sua identidade, o amarrou ao mastro. Depois voltaram o navio para o porto de Prine, na Ásia Menor, onde tencionavam vendê-lo como escravo.
Depressa viram que tinham cometido um erro, porque Dioniso partiu facilmente as cordas. Ficou uns momentos na sua frente, e começou a aumentar de tamanho. De repente, transformou-se num leão. Um rugido que parecia de mil animais ferozes encheu o ar. Nasceram vides na tolda e entrelaçaram-se nos cordames, e o navio estremeceu como que batido por uma enorme vaga.
Os marinheiros ficaram petrificados e pálidos de susto. Depois, todos à uma, atiraram-se ao mar. E transformaram-se em delfins, nadando por entre as cristas das ondas.
Voltando novamente ao barco, Dioniso navegou mais unia vez para a ilha de Naxos. Ali conheceu e casou com a filha de um rei e, talvez por influência dela, terminou os seus dias mais feliz do que tinha começado. Com o tempo conseguiu libertar a mãe do Mundo Inferior, mudando-lhe o nome de Sémele para Tione, para que Hera não soubesse. Semelhante amor para com os outros era novo em Dioniso e mostrava que a sua vida de maldades terminara.
Pã não parecia importar-se muito, porque era um ser simples e sem ambições. Não aspirava às alturas do Olimpo e gostava de viver com os mortais na Arcádia, rio centro da Grécia do Sul. Esta era uma terra de largas planícies, entremeada de bosques e florestas. A norte existiam altas montanhas, onde Pã vivia a vida de pastor e guardador de gado, cuidando das suas ovelhas, cabras e abelhas. À noite juntava-se dom entusiasmo às festas das ninfas dos bosques e das colinas. Nessa altura tornava-se um pouco selvagem. Gostava imenso de se esconder entre as árvores quando passava um estranho, e assustá-lo com um grito repentino.
Pã pretendeu muitas ninfas, entre elas Sírinx, que fugiu horrorizada para as margens do rio Laden e se transformou em cana para lhe escapar. Incapaz de a distinguir entre tantas canas, Pã cortou um molho delas e fez as flautas com que ainda hoje o vemos.
Só quando a sua grande habilidade como flautista foi conhecida é que os deuses levaram Pã ao Olimpo por uns tempos para lhes ensinar a sua arte. Mas depressa percebeu pelos olhares de troça que não o chamavam senão por isso, e voltou outra vez à Arcádia e à sua vida anterior.
A história do deus Dioniso contrasta totalmente com a do modesto Pã. É uma história de loucuras, roubos e pilhagens, de um deus movido por forças que não conseguia controlar.
Zeus era pai de Dioniso, e a mãe era Sémele, filha do rei de Tiro. A ciumenta mulher de Zeus, Hera, destruiu Sémele com um raie, mas a titã Reia salvou o bebe e entregou-o aos cuidados do rei Átamas, de Tebas, c da sua mulher Ino. Para maior precaução, Dioniso andou sempre disfarçado de rapariga enquanto esteve com eles.
Apesar disso, Hera descobriu o seu paradeiro e enlouqueceu o casal, de forma que, num acesso de fúria, mataram o seu próprio filho,
Dioniso ainda não tinha sofrido nada, mas por ordem de Zeus, Hermes foi rapidamente a Tebas e transformou o rapaz numa cabra, para o esconder melhor. Depois Hermes levou Dioniso durante a noite para o monte Nise, onde as ninfas tomaram conta dele. Dioniso voltou à sua forma humana, mas ficaram-lhe para o resto da vida dois pequenos chifres, como os de um cabrito. Foi enquanto viveu na montanha que ele cultivou a primeira vide e fez uma vinha nas vertentes escarpadas do Sul. Plantava vides em todos os sítios para onde ia, e ficou conhecido como o deus do vinho.
Durante algum tempo tudo parecia correr bem, mas Hera não desistiu de procurar o rapaz e, por fim, encontrou-o. Sem a menor piedade, transtornou-lhe o cérebro, tal como tinha feito com Átamas e Ino, e ele ficou doido.
Dioniso rejeitou então todas as ninfas gentis que tinham tratado dele com tanto cuidado, e escolheu para companheiros os sátiros brutos e sem regras, guiados por Sileno e pelas Ménades As ménades eram mulheres selvagens, com os olhos brilhantes de maldade. Vestidas com peles de animais e armadas de espadas e serpentes, eram horríveis de ver e destruíam tudo o que lhes aparecesse pela frente.
Com o seu estranho bando, o jovem deus vagueou pelos mares, dando batalha e matando sem piedade todo aquele que se atravessasse no seu caminho. Primeiro visitou o Egito, onde as Amazonas se juntaram a ele para devolver o trono ao rei Ámon. Depois seguiu-se uma longa viagem por terra até à índia, onde se deram muitas batalhas sangrentas até toda a terra ser dominada. No Oriente, Dioniso viu muitas paisagens, costumes e animais desconhecidos nesse tempo na terra do seu nascimento, e levou com ele para a Europa os primeiros elefantes, que fizeram a admiração dos Ocidentais.
No regresso de Dioniso, Reia desafiou Hera e tentou livrar o rapaz da loucura, mas parece que era demasiado tarde. Apesar de um pouco mudado, Dioniso não desistiu do seu grupo de sátiros e de Ménades e da vida que faziam juntos. Tinha-se habituado à sua vocação comum, o amor da rebeldia e a vida selvagem, e ao vinho das vides que plantara e tratara.
Dioniso e o seu estranho exército, embora vivendo a combater, nem sempre ganhavam.
Licurgo derrotou-os completamente quando eles invadiram a Trácia, e embora Reia enlouquecesse Licurgo para salvar Dioniso, este apenas escapou à morte atirando-se ao mar, onde a ninfa Tétis o escondeu até passar o perigo.
De maneira mais pacífica, o deus do vinho e os companheiros visitaram Tebas, a principal cidade da Beócia, que fica a alguns dias de viagem a norte de Atenas, As pessoas eram calmas e reservadas, e embora tivessem tentado ser amigos ficaram ofendidos com o comportamento dos sátiros e das Ménades meio embriagados. O povo não viu com bons olhos as danças selvagens que duraram toda a noite na vertente do monte Citéron, por cima da cidade e ninguém pôde dormir por causa da música.
O rei de Tebas sabia que a um deus eram devidas certas liberdades, mas o seu povo sofrera bastante, pelo que mandou prender Dioniso e o seu bando. Mas antes que a ordem fosse executada, Dioniso enlouqueceu-o. Então os sátiros escaparam-se e alvoroçaram, pilharam e mataram por todo o país.
Deixando a Beócia numa confusão, Dioniso navegou para as ilhas Egeias. Dirigiu um navio a Naxos e esteve alguns dias no mar, quando a tripulação, duvidosa da sua identidade, o amarrou ao mastro. Depois voltaram o navio para o porto de Prine, na Ásia Menor, onde tencionavam vendê-lo como escravo.
Depressa viram que tinham cometido um erro, porque Dioniso partiu facilmente as cordas. Ficou uns momentos na sua frente, e começou a aumentar de tamanho. De repente, transformou-se num leão. Um rugido que parecia de mil animais ferozes encheu o ar. Nasceram vides na tolda e entrelaçaram-se nos cordames, e o navio estremeceu como que batido por uma enorme vaga.
Os marinheiros ficaram petrificados e pálidos de susto. Depois, todos à uma, atiraram-se ao mar. E transformaram-se em delfins, nadando por entre as cristas das ondas.
Voltando novamente ao barco, Dioniso navegou mais unia vez para a ilha de Naxos. Ali conheceu e casou com a filha de um rei e, talvez por influência dela, terminou os seus dias mais feliz do que tinha começado. Com o tempo conseguiu libertar a mãe do Mundo Inferior, mudando-lhe o nome de Sémele para Tione, para que Hera não soubesse. Semelhante amor para com os outros era novo em Dioniso e mostrava que a sua vida de maldades terminara.
domingo, agosto 5
O Sábio segundo H.Thoreau

Como pode o homem ser sábio se ele não sabe viver melhor do que os outros homens? -- se ele é apenas mais esperto e mais sutil intelectualmente? A Sabedoria falha? ou ela, por seu exemplo, ensina o modo de ser bem sucedido? Porventura é ela apenas o moleiro que mói uma lógica mais sutil? Platão ganhava sua vida melhor ou com mais sucesso do que seus contemporâneos? Sucumbia ele, como os demais homens, às dificuldades da vida? Predominava sobre os demais apenas pela indiferença, por se dar grandes ares? ou vivia com mais facilidade porque sua tia lembrou-se dele no testamento?
Henry Thoreau (1817-1862)
terça-feira, julho 31
NECROCOMBUSTÍVEIS - Frei Betto

O prefixo grego bio significa vida; necro, morte. O combustível extraído de plantas traz vida? No meu tempo de escola primária, a história do Brasil se dividia em ciclos: pau-brasil, ouro, cana, café etc. A classificação não é de todo insensata. Agora estamos em pleno ciclo dos agrocombustíveis, incorretamente chamados de biocombustíveis. Este novo ciclo provoca o aumento dos preços dos alimentos, já denunciado por Fidel Castro. Estudo da OCDE e da FAO, divulgado a 4 de julho, indica que “os biocombustíveis terão forte impacto na agricultura entre 2007 e 2016.” Os preços agrícolas ficarão acima da média dos últimos dez anos. Os grãos deverão custar de 20 a 50% mais. No Brasil, a população pagou três vezes mais pelos alimentos no primeiro semestre deste ano, se comparado ao mesmo período de 2006.Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos automotores no mundo. O mesmo número de pessoas sobrevive em desnutrição crônica. O que inquieta é que nenhum dos governos entusiasmados com os agrocombustíveis questiona o modelo de transporte individual, como se os lucros da indústria automobilística fossem intocáveis.Os preços dos alimentos já sobem em ritmo acelerado na Europa, na China, na Índia e nos EUA. A agflação – a inflação dos produtos agrícolas – deve chegar, este ano, a 4% nos EUA, comparada ao aumento de 2,5% em 2006. Lá, como o milho está quase todo destinado à produção de etanol, o preço do frango subiu 30% nos últimos doze meses. E o leite deve subir 14% este ano. Na Europa, a manteiga já está 40% mais cara. No México, houve mobilização popular contra o aumento de 60% no preço das tortillas, feitas de milho. O etanol made in USA, produzido a partir do milho, fez dobrar o preço deste grão em um ano. Não que os ianques gostem tanto de milho (exceto pipoca). Porém, o milho é componente essencial na ração de suínos, bovinos e aves, o que eleva o custo de criação desses animais, encarecendo derivados como carne, leite, manteiga e ovos.Como hoje quem manda é o mercado, acontece nos EUA o que se reproduz no Brasil com a cana: os produtores de soja, algodão e outros bens agrícolas abandonam seus cultivos tradicionais pelo novo “ouro” agrícola: o milho lá, a cana aqui. Isso repercute nos preços da soja, do algodão e de toda a cadeia alimentar, considerando que os EUA são responsáveis por metade da exportação mundial de grãos.Nos EUA, já há lobbies de produtores de bovinos, suínos, caprinos e aves pressionando o Congresso para que se reduza o subsídio aos produtores de etanol. Preferem que se importe etanol do Brasil, à base de cana, de modo a se evitar ainda mais a alta do preço da ração. A desnutrição ameaça, hoje, 52,4 milhões de latino-americanos e caribenhos, 10% da população do Continente. Com a expansão das áreas de cultivo voltadas à produção de etanol, corre-se o risco dele se transformar, de fato, em necrocombustível – predador de vidas humanas. No Brasil, o governo já puniu, este ano, fazendas cujos canaviais dependiam de trabalho escravo. E tudo indica que a expansão dessa lavoura no Sudeste empurrará a produção de soja Amazônia adentro, provocando o desmatamento de uma região que já perdeu, em área florestal, o equivalente ao território de 14 estados de Alagoas.A produção de cana no Brasil é historicamente conhecida pela superexploração do trabalho, destruição do meio ambiente e apropriação indevida de recursos públicos. As usinas se caracterizam pela concentração de terras para o monocultivo voltado à exportação. Utilizam em geral mão-de-obra migrante, os bóias-frias, sem direitos trabalhistas regulamentados. Os trabalhadores são (mal) remunerados pela quantidade de cana cortada, e não pelo número de horas trabalhadas. E ainda assim não têm controle sobre a pesagem do que produzem.Alguns chegam a cortar, obrigados, 15 toneladas por dia. Tamanho esforço causa sérios problemas de saúde, como câimbras e tendinites, afetando a coluna e os pés. A maioria das contratações se dá por intermediários (trabalho terceirizado) ou “gatos”, arregimentadores de trabalho escravo ou semi-escravo. Após 1850, um escravo costumava trabalhar no corte de cana por 15 a 20 anos. Hoje, o trabalho excessivo reduziu este tempo médio para 12 anos.O entusiasmo de Bush e Lula pelo etanol faz com que usineiros alagoanos e paulistas disputem, palmo a palmo, cada pedaço de terra do Triângulo Mineiro. Segundo o repórter Amaury Ribeiro Jr, em menos de quatro anos, 300 mil hectares de cana foram plantados em antigas áreas de pastagens e de agricultura. A instalação de uma dezena de usinas novas, próximas a Uberaba, gerou a criação de 10 mil empregos e fez a produção de álcool em Minas saltar de 630 milhões de litros em 2003 para 1,7 bilhão este ano.A migração de mão-de-obra desqualificada rumo aos canaviais – 20 mil bóias-frias por ano - produz, além do aumento de favelas, o de assassinatos, tráfico de drogas, comércio de crianças e de adolescentes destinados à prostituição.O governo brasileiro precisa livrar-se da sua síndrome de Colosso (a famosa tela de Goya). Antes de transformar o país num imenso canavial e sonhar com a energia atômica, deveria priorizar fontes de energia alternativa abundantes no Brasil, como hidráulica, solar e eólica. E cuidar de alimentar os sofridos famintos, antes de enriquecer os “heróicos” usineiros.Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
quarta-feira, julho 18
Tagore

Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?
Rabindranath Tagore
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