terça-feira, agosto 28

Cavaleiros do Apocalipse



Ultimamente estou observando muito certas mensagens sobre o fim dos tempos... hehehe... verdade... sobre ofim dos tempos daquilo que diz respeito, obviamente, ao Cavaleiro do Apocalipse que anuncia o grande, cataclisma!!! trocamos notícias diariamente na internet via email, blog, orkut, etc... isso é bom, e tem surtido frutos afinal denunciar é preciso... muitas das notícias que propagamos de certo modo esta fora de nosso âmbito uma atitude mais direta, de qualquer modo a indignação e conscientização já é um grande passo nesses casos. Contudo tem notícias que nos dizem respeito de forma direta, e pior, temos meios para agir contra e o que fazemos? Aí entra os tais"Cavaleiros do Apocalipse" que anunciam tristemente o fim próximo e nada fazem evita-lo!!!


Tudo isso tem me servido de reflexão pessoal para ver se não me encaixo também nesses Cavaleiros do Apocalipse, e me envergonho com a hipótese de viver uma filosofia individualista da qual só entra em palco diante de questões atingem somente a mim (exemplo: minha vida profissional corre perigo então agora sim vou militar, mas de forma bem morna pois afinal tenho minhas contas a pagar).


Isso não é nenhuma indireta a nenhum dos colegas que recebem esses emails... isso é antes de tudo uma realidade geral da qual muitas vezes faço parte. Deixo perguntas... do que serve essa tal razão se na maioria esmagadora das vezes ela é escrava das minhas vontades? Será que a pólis (cidade) é realmente maior das utopias?


É triste ter que admitir que a letra da música abaixo parece mais um sonho infantil desprovido do tal realismo paralisante que substitui a palavra humanidade por indivíduo (ou simplesmente EU)




"Nesta fantasia eu vejo um mundo justo


Ali todos vivem em paz e em honestidade


O sonho das almas que são sempre livres


Como as nuvens que voam


Cheias de humanidade dentro da alma


Na fantasia eu vejo um mundo claro


Lá também a noite é menos escura


Eu sonho que as almas são sempre livres


Como nuvens que voam


Na fantasia existe um vento quente


Que sopra pela cidade como amigo


Eu sonho que as almas são sempre livres


Como nuvens que voam


Cheias de humanidade no fundo da alma"


(Tema do filme "A Missão")




Paradoxal é pensar que essa letra pode parecer completamente rídicula e ingênua justamente para pessoas que crêem firmemente em um parceiro(a) eterno(a) ou mesmo que é posssível ganhar na mega-sena, ou seja, os sonhos no campo do individual é realização!!! agora no campo do coletivo é ingenuidade??? Será que Hobbes tinha mesmo razão em definir o homem como um átomo de egoísmo??? Mas ele ainda tinha fé que a sociedade educaria o homem por causas mais nobres do que realizações próprias!!!

domingo, agosto 26

Síntaxe à Vontade


Sem horas e sem dores

Respeitável público pagão

a partir de sempre

toda cura pertence a nós

toda resposta e dúvida

todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser

todo verbo é livre para ser direto ou indireto

nenhum predicado será prejudicado

nem tampouco a crase, nem a frase, nem a vírgula e ponto final!

afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas

e estar entre vírgulas pode ser aposto

e eu aposto o oposto que vou cativar a todos

sendo apenas um sujeito simples

um sujeito e sua oração

sua pressa e sua prece que a regência da paz sirva a todos nós...

cegos ou não que enxerguemos o fato de termos acessórios para nossa oração

separados ou adjuntos, nominais ou não façamos parte do contexto.

sejamos todas as capas de edição especial

mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante

sejamos também a contra-capa

porque ser a capa e ser a contra-capa é a beleza da contradição

é negar a si mesmo e negar a si mesmo é muitas vezes,

encontrar-se com Deus com o teu Deus

sem horas e sem dores que nesse momento que cada um se encontra aqui

agora um possa se encontrar no outro, e o outro no uma

té porque... tem horas que a gente se pergunta...

por que é que não se junta tudo numa coisa só?


O Teatro Mágico

segunda-feira, agosto 6

Pã e Dionísio, os deuses selvagens


Atribui-se a muitos a paternidade de Pã. Evidentemente que foi mencionado também o irrequieto Zeus, mas até hoje ninguém sabe ao certo se foi ele. A verdade parece ser que Pã foi desprezado pelo pai por ser tão feio: mal feito e peludo, tinha chifres, barba, cauda e pés de cabra. Os outros deuses afastavam-se dele por causa do seu aspecto físico e não o consideravam um dos seus, embora pelo nascimento ele talvez fosse um deus e, segundo alguns, ainda mais antigo do que os velhos Titãs.
Pã não parecia importar-se muito, porque era um ser simples e sem ambições. Não aspirava às alturas do Olimpo e gostava de viver com os mortais na Arcádia, rio centro da Grécia do Sul. Esta era uma terra de largas planícies, entremeada de bosques e florestas. A norte existiam altas montanhas, onde Pã vivia a vida de pastor e guardador de gado, cuidando das suas ovelhas, cabras e abelhas. À noite juntava-se dom entusiasmo às festas das ninfas dos bosques e das colinas. Nessa altura tornava-se um pouco selvagem. Gostava imenso de se esconder entre as árvores quando passava um estranho, e assustá-lo com um grito repentino.
Pã pretendeu muitas ninfas, entre elas Sírinx, que fugiu horrorizada para as margens do rio Laden e se transformou em cana para lhe escapar. Incapaz de a distinguir entre tantas canas, Pã cortou um molho delas e fez as flautas com que ainda hoje o vemos.
Só quando a sua grande habilidade como flautista foi conhecida é que os deuses levaram Pã ao Olimpo por uns tempos para lhes ensinar a sua arte. Mas depressa percebeu pelos olhares de troça que não o chamavam senão por isso, e voltou outra vez à Arcádia e à sua vida anterior.
A história do deus Dioniso contrasta totalmente com a do modesto Pã. É uma história de loucuras, roubos e pilhagens, de um deus movido por forças que não conseguia controlar.
Zeus era pai de Dioniso, e a mãe era Sémele, filha do rei de Tiro. A ciumenta mulher de Zeus, Hera, destruiu Sémele com um raie, mas a titã Reia salvou o bebe e entregou-o aos cuidados do rei Átamas, de Tebas, c da sua mulher Ino. Para maior precaução, Dioniso andou sempre disfarçado de rapariga enquanto esteve com eles.
Apesar disso, Hera descobriu o seu paradeiro e enlouqueceu o casal, de forma que, num acesso de fúria, mataram o seu próprio filho,
Dioniso ainda não tinha sofrido nada, mas por ordem de Zeus, Hermes foi rapidamente a Tebas e transformou o rapaz numa cabra, para o esconder melhor. Depois Hermes levou Dioniso durante a noite para o monte Nise, onde as ninfas tomaram conta dele. Dioniso voltou à sua forma humana, mas ficaram-lhe para o resto da vida dois pequenos chifres, como os de um cabrito. Foi enquanto viveu na montanha que ele cultivou a primeira vide e fez uma vinha nas vertentes escarpadas do Sul. Plantava vides em todos os sítios para onde ia, e ficou conhecido como o deus do vinho.
Durante algum tempo tudo parecia correr bem, mas Hera não desistiu de procurar o rapaz e, por fim, encontrou-o. Sem a menor piedade, transtornou-lhe o cérebro, tal como tinha feito com Átamas e Ino, e ele ficou doido.
Dioniso rejeitou então todas as ninfas gentis que tinham tratado dele com tanto cuidado, e escolheu para companheiros os sátiros brutos e sem regras, guiados por Sileno e pelas Ménades As ménades eram mulheres selvagens, com os olhos brilhantes de maldade. Vestidas com peles de animais e armadas de espadas e serpentes, eram horríveis de ver e destruíam tudo o que lhes aparecesse pela frente.
Com o seu estranho bando, o jovem deus vagueou pelos mares, dando batalha e matando sem piedade todo aquele que se atravessasse no seu caminho. Primeiro visitou o Egito, onde as Amazonas se juntaram a ele para devolver o trono ao rei Ámon. Depois seguiu-se uma longa viagem por terra até à índia, onde se deram muitas batalhas sangrentas até toda a terra ser dominada. No Oriente, Dioniso viu muitas paisagens, costumes e animais desconhecidos nesse tempo na terra do seu nascimento, e levou com ele para a Europa os primeiros elefantes, que fizeram a admiração dos Ocidentais.
No regresso de Dioniso, Reia desafiou Hera e tentou livrar o rapaz da loucura, mas parece que era demasiado tarde. Apesar de um pouco mudado, Dioniso não desistiu do seu grupo de sátiros e de Ménades e da vida que faziam juntos. Tinha-se habituado à sua vocação comum, o amor da rebeldia e a vida selvagem, e ao vinho das vides que plantara e tratara.
Dioniso e o seu estranho exército, embora vivendo a combater, nem sempre ganhavam.
Licurgo derrotou-os completamente quando eles invadiram a Trácia, e embora Reia enlouquecesse Licurgo para salvar Dioniso, este apenas escapou à morte atirando-se ao mar, onde a ninfa Tétis o escondeu até passar o perigo.
De maneira mais pacífica, o deus do vinho e os companheiros visitaram Tebas, a principal cidade da Beócia, que fica a alguns dias de viagem a norte de Atenas, As pessoas eram calmas e reservadas, e embora tivessem tentado ser amigos ficaram ofendidos com o comportamento dos sátiros e das Ménades meio embriagados. O povo não viu com bons olhos as danças selvagens que duraram toda a noite na vertente do monte Citéron, por cima da cidade e ninguém pôde dormir por causa da música.
O rei de Tebas sabia que a um deus eram devidas certas liberdades, mas o seu povo sofrera bastante, pelo que mandou prender Dioniso e o seu bando. Mas antes que a ordem fosse executada, Dioniso enlouqueceu-o. Então os sátiros escaparam-se e alvoroçaram, pilharam e mataram por todo o país.
Deixando a Beócia numa confusão, Dioniso navegou para as ilhas Egeias. Dirigiu um navio a Naxos e esteve alguns dias no mar, quando a tripulação, duvidosa da sua identidade, o amarrou ao mastro. Depois voltaram o navio para o porto de Prine, na Ásia Menor, onde tencionavam vendê-lo como escravo.
Depressa viram que tinham cometido um erro, porque Dioniso partiu facilmente as cordas. Ficou uns momentos na sua frente, e começou a aumentar de tamanho. De repente, transformou-se num leão. Um rugido que parecia de mil animais ferozes encheu o ar. Nasceram vides na tolda e entrelaçaram-se nos cordames, e o navio estremeceu como que batido por uma enorme vaga.
Os marinheiros ficaram petrificados e pálidos de susto. Depois, todos à uma, atiraram-se ao mar. E transformaram-se em delfins, nadando por entre as cristas das ondas.
Voltando novamente ao barco, Dioniso navegou mais unia vez para a ilha de Naxos. Ali conheceu e casou com a filha de um rei e, talvez por influência dela, terminou os seus dias mais feliz do que tinha começado. Com o tempo conseguiu libertar a mãe do Mundo Inferior, mudando-lhe o nome de Sémele para Tione, para que Hera não soubesse. Semelhante amor para com os outros era novo em Dioniso e mostrava que a sua vida de maldades terminara.

domingo, agosto 5

O Sábio segundo H.Thoreau


Como pode o homem ser sábio se ele não sabe viver melhor do que os outros homens? -- se ele é apenas mais esperto e mais sutil intelectualmente? A Sabedoria falha? ou ela, por seu exemplo, ensina o modo de ser bem sucedido? Porventura é ela apenas o moleiro que mói uma lógica mais sutil? Platão ganhava sua vida melhor ou com mais sucesso do que seus contemporâneos? Sucumbia ele, como os demais homens, às dificuldades da vida? Predominava sobre os demais apenas pela indiferença, por se dar grandes ares? ou vivia com mais facilidade porque sua tia lembrou-se dele no testamento?

Henry Thoreau (1817-1862)

terça-feira, julho 31

NECROCOMBUSTÍVEIS - Frei Betto


O prefixo grego bio significa vida; necro, morte. O combustível extraído de plantas traz vida? No meu tempo de escola primária, a história do Brasil se dividia em ciclos: pau-brasil, ouro, cana, café etc. A classificação não é de todo insensata. Agora estamos em pleno ciclo dos agrocombustíveis, incorretamente chamados de biocombustíveis. Este novo ciclo provoca o aumento dos preços dos alimentos, já denunciado por Fidel Castro. Estudo da OCDE e da FAO, divulgado a 4 de julho, indica que “os biocombustíveis terão forte impacto na agricultura entre 2007 e 2016.” Os preços agrícolas ficarão acima da média dos últimos dez anos. Os grãos deverão custar de 20 a 50% mais. No Brasil, a população pagou três vezes mais pelos alimentos no primeiro semestre deste ano, se comparado ao mesmo período de 2006.Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos automotores no mundo. O mesmo número de pessoas sobrevive em desnutrição crônica. O que inquieta é que nenhum dos governos entusiasmados com os agrocombustíveis questiona o modelo de transporte individual, como se os lucros da indústria automobilística fossem intocáveis.Os preços dos alimentos já sobem em ritmo acelerado na Europa, na China, na Índia e nos EUA. A agflação – a inflação dos produtos agrícolas – deve chegar, este ano, a 4% nos EUA, comparada ao aumento de 2,5% em 2006. Lá, como o milho está quase todo destinado à produção de etanol, o preço do frango subiu 30% nos últimos doze meses. E o leite deve subir 14% este ano. Na Europa, a manteiga já está 40% mais cara. No México, houve mobilização popular contra o aumento de 60% no preço das tortillas, feitas de milho. O etanol made in USA, produzido a partir do milho, fez dobrar o preço deste grão em um ano. Não que os ianques gostem tanto de milho (exceto pipoca). Porém, o milho é componente essencial na ração de suínos, bovinos e aves, o que eleva o custo de criação desses animais, encarecendo derivados como carne, leite, manteiga e ovos.Como hoje quem manda é o mercado, acontece nos EUA o que se reproduz no Brasil com a cana: os produtores de soja, algodão e outros bens agrícolas abandonam seus cultivos tradicionais pelo novo “ouro” agrícola: o milho lá, a cana aqui. Isso repercute nos preços da soja, do algodão e de toda a cadeia alimentar, considerando que os EUA são responsáveis por metade da exportação mundial de grãos.Nos EUA, já há lobbies de produtores de bovinos, suínos, caprinos e aves pressionando o Congresso para que se reduza o subsídio aos produtores de etanol. Preferem que se importe etanol do Brasil, à base de cana, de modo a se evitar ainda mais a alta do preço da ração. A desnutrição ameaça, hoje, 52,4 milhões de latino-americanos e caribenhos, 10% da população do Continente. Com a expansão das áreas de cultivo voltadas à produção de etanol, corre-se o risco dele se transformar, de fato, em necrocombustível – predador de vidas humanas. No Brasil, o governo já puniu, este ano, fazendas cujos canaviais dependiam de trabalho escravo. E tudo indica que a expansão dessa lavoura no Sudeste empurrará a produção de soja Amazônia adentro, provocando o desmatamento de uma região que já perdeu, em área florestal, o equivalente ao território de 14 estados de Alagoas.A produção de cana no Brasil é historicamente conhecida pela superexploração do trabalho, destruição do meio ambiente e apropriação indevida de recursos públicos. As usinas se caracterizam pela concentração de terras para o monocultivo voltado à exportação. Utilizam em geral mão-de-obra migrante, os bóias-frias, sem direitos trabalhistas regulamentados. Os trabalhadores são (mal) remunerados pela quantidade de cana cortada, e não pelo número de horas trabalhadas. E ainda assim não têm controle sobre a pesagem do que produzem.Alguns chegam a cortar, obrigados, 15 toneladas por dia. Tamanho esforço causa sérios problemas de saúde, como câimbras e tendinites, afetando a coluna e os pés. A maioria das contratações se dá por intermediários (trabalho terceirizado) ou “gatos”, arregimentadores de trabalho escravo ou semi-escravo. Após 1850, um escravo costumava trabalhar no corte de cana por 15 a 20 anos. Hoje, o trabalho excessivo reduziu este tempo médio para 12 anos.O entusiasmo de Bush e Lula pelo etanol faz com que usineiros alagoanos e paulistas disputem, palmo a palmo, cada pedaço de terra do Triângulo Mineiro. Segundo o repórter Amaury Ribeiro Jr, em menos de quatro anos, 300 mil hectares de cana foram plantados em antigas áreas de pastagens e de agricultura. A instalação de uma dezena de usinas novas, próximas a Uberaba, gerou a criação de 10 mil empregos e fez a produção de álcool em Minas saltar de 630 milhões de litros em 2003 para 1,7 bilhão este ano.A migração de mão-de-obra desqualificada rumo aos canaviais – 20 mil bóias-frias por ano - produz, além do aumento de favelas, o de assassinatos, tráfico de drogas, comércio de crianças e de adolescentes destinados à prostituição.O governo brasileiro precisa livrar-se da sua síndrome de Colosso (a famosa tela de Goya). Antes de transformar o país num imenso canavial e sonhar com a energia atômica, deveria priorizar fontes de energia alternativa abundantes no Brasil, como hidráulica, solar e eólica. E cuidar de alimentar os sofridos famintos, antes de enriquecer os “heróicos” usineiros.Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

quarta-feira, julho 18

Tagore


Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;

por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?

Se me é negado o amor, por que, então,

A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?

E por que este desatinado coração continua,

Esperançado e louco, olhando o mar infinito?


Rabindranath Tagore

segunda-feira, julho 16

O Andarilho


Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra - e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.”

NIETZSCHE

Al-Hallâj


O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.
Se já não sou do Ocidente ou do Oriente; não sou das minas, da terra ou do céu.
Não sou feito de terra, água, ar ou fogo; não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.
Nem da China, da Índia, ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Khorassan.
Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.
O meu lugar é sempre o não-lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.
O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.
"Primeiro e último, de dentro e fora,
eu canto e reconheço aquele que É.
Ébrio de amor, não sei de céu e terra.
Não passo do mais puro libertino.
Se houver passado um dia em minha vida sem ti, eu desse dia me arrependo.
Se pudesse passar um só instante
contigo, eu dançaria nos dois mundos.
Shams de Tabriz, vou ébrio pelo mundo
e beijo com meus lábios a loucura.

segunda-feira, julho 9

A MAIS NOBRE DAS LINGUAGENS



No coração da pessoa humana o sagrado e o profano disputam o papel de senhores do próprio sentido da existência, daquele significado que torna a angústia fecunda e a dor de viver significativa. Razão e fé se debatem, ora predatórias, ora harmônicas, buscando cada qual ocupar o locus que determina a própria identidade do homem. Esse embate primordial, no qual brota e padece a consciência, não é travado na solidão irremediável dos templos, tampouco na fria lógica dos tubos de ensaio, mas no calor sonoro das sílabas, no estilhaçar das rimas e na fúria silenciosa das verbos que desencadeiam o movimento, ou seja, quando nos referimos à dimensão sagrada da existência, da qual a religião é a grande mestra, não raro, a maior das adversárias, entramos no universo da linguagem e de peculiar potência de expressar algo sem esgotá-lo ou transformar-se nele.
Toda a religião é, antes de tudo, uma forma peculiar de se expressar o mundo, o homem, a natureza e, principalmente, o divino. São as palavras que tecem as ocultas tramas sobre os quais debruça-se a totalidade do existir. Dessa forma, não podemos pensar o divino como algo além de toda a possibilidade lingüística, mesmo se tratando de algo que trafega nas baias do soluto e escapa a toda e qualquer pretensão de ser definido. Todavia, é impossível escapar à constatação de que, mesmo o mais refinado e preciso uso das palavras, podem atingir a essência do sagrado.
A religião, compartilhando do destino da própria linguagem, é radicalmente marcada por esse paradoxo, cujos desdobramentos podem decretar a morte do divino e sua mais completa impossibilidade; jogar-nos na incômoda posição de meros factóides de uma vontade superior e, portanto, soberana; ou, no cenário de uma prática religiosa plena de consciência acerca de sua verdadeira natureza, unir a concretude da vida humana à dinâmica perene e fecundante do sagrado. Tudo isso é uma questão de que tipo de linguagem a religião se propõe a ser e dela se assumir, definitivamente, como tal.
Nada é mais danoso do que uma linguagem corrompida, sobretudo se esta tiver a pretensão de dizer algo acerca das realidades superiores, cujos horizontes fornecem infinitude à existência. A religião pode ser a mais bela, móvel e significativa das linguagens. Todavia, caminha sempre no limites que a impedem de ser a mais opressora e angustiada de todas. Assim, ela pode assumir-se como língua de possessos, tragando para dentro das ilusões mais devastadoras a consciência humana, que dali só pode emergir dilacerada pela insanidade e náufraga na loucura, incapaz de penetrar na imaginação criativa que nos conduz ao sagrado. Também pode assumir-se como linguagem de cegos, vitimada por perseguições, críticas violentas, choques profundos com os sistemas que se outorgam o direito de reger a realidade. Uma linguagem nem sempre apta a escapar dessas tramas secretas nas quais o espírito se vê impedido de alçar vôos maiores e mais necessários.
Entretanto a religião também pode ser palavra declinada pelo amor, em cujos versos move-se livre de amarras e de preconceitos os ser humano. Esta linguagem é o espaço da comunicação integral do homem com Deus, do indivíduo com o outro. É um olhar para dentro de si próprio, e nesse olhar se depara com o divino que lhe habita e que lhe supera.
Muitas palavras são ditas sobre Deus. A religião é basicamente um falar acerca do transcendente, de suas formas, poderes e influência. Dizer a palavra certa e da maneira correta pode ser o pequeno detalhe que separa o homem de sua essência mais radical: apresentar-se como um ser de vastidões, tão pequeno e tão frágil e, ao mesmo tempo, tão imenso e tão forte. Essa é a linguagem do equilíbrio, da justa medida entre o humano e o divino, isto é, são ambos e não são um.

Eros e Tânatos


Quero viver o instante e o momento,
Da posse do teu corpo, ternamente...
Cada beijo, cada toque de ardente
Paixão e prazenteiroso lamento
Que sair dos nossos lábios.
Reter
O fogo dos beijos apaixonados.
O suor dos nossos corpos molhados,
Entre tuas coxas, as minhas.
Meu ser,
Dentro do teu.
Que loucura há no amor,
Que possamos viver tão doce instante...
Desde a alegria do prazer, à dor
Da agonia da morte e da partida.
Este momento é mágico o bastante,
Leveza da morte, retorno à vida !

domingo, julho 8


"E como ousar inflingir a lei do saber

E adentrar o coração de um filósofo?

Como esquentar seu hálito gélido

Iluminar seu coração sombrio?

Como adentrar sua mente certa e seus

Pensamentos concretos e ébrios?

Como transformar sua alma em flor

Suas palavras em amor?

O filósofo tem a alma surda, a mente viva

A língua afiada e o falo ardente.

Mas não é capaz de fazer a vida seguir

Em caminhos tortos, tudo é muito pragmático...

Eu ousei. E me feri. Eu sonhei

E foi em vão...

Seu coração é impenetrável, sua mente, uma pedra

Fria e cheia de saberes que não cessam nunca.

É impossivel transmutar sua razão em música...



"Homenagem da minha irmã Emilia Ract 13/04/2007 - Poesia Registrada

sexta-feira, julho 6

Um pouco de Etienne La Boétie



“Não há dúvidas, pois, de que a liberdade é natural e que, pela mesma ordem e de idéias, todos nós nascemos não só senhores da nossa alforria mas também com condições para a defendermos. Se acaso pusermos isso em dúvida e descermos tão baixo que não sejamos capazes de reconhecer qual o nosso direito e as nossas qualidades naturais, vou ter de vos tratar como mereceis e por os próprios animais a dar-vos lições e a ensinar-vos qual é vossa verdadeira natureza e condição. Só quem for surdo não ouve o que dizem os animais: viva a liberdade! Muitos deles morrem quando os apanham. Como o peixe que, fora da água, perde a vida, também outros animais se negam a viver sem a liberdade que lhes é natural. Se os animais estabelecessem entre si quaisquer grandezas e proeminências, fariam (creio firmemente) da liberdade a sua nobreza. Alguns há que, dos maiores aos menores, ao serem presos, opõem resistência com as garras, os chifres, as patas e o bico, demonstrando assim claramente o quanto prezam a liberdade perdida. E uma vez no cativeiro, dão evidentes sinais do conhecimento que têm da sua desgraça e deixam ver perfeitamente que se sentem mais mortos do que vivos, continuando a viver mais para lamentarem a liberdade perdida do que por lhes agradar a servidão. O que quer dizer o elefante que, depois de se defender até mais não poder, sentindo-se impotente e prestes a ser apanhado, espeta as presas nas árvores e as quebra, assim mostrando o grande desejo que tem de continuar livre como nasceu? Assim dá a entender que deseja negociar com os caçadores, dando-lhes os dentes para que o soltem, entregando-lhes o marfim em penhor da liberdade.” (trecho retirado do livro "Discurso sobre a servidão voluntária")

Esquimós declaram guerra a sorvetes no Canadá



Toronto (Canadá), 5 jul (EFE).- A tribo squamish, uma das nações indígenas do oeste canadense, proibiu a entrada em seu território de vendedores ambulantes de sorvetes como medida para lutar contra a epidemia de diabete que afeta suas comunidades, informou hoje a imprensa local.
Os indígenas canadenses, que se autodenominam com o nome genérico de "primeiras nações", são a comunidade que mais sofre com o alarmante crescimento da incidência de diabete, especialmente do tipo 2, em conseqüência dos hábitos alimentícios e da falta de exercícios.
Doris Paul, encarregada dos serviços familiares e infantis dos squamish, decidiu propor a proibição aos tradicionais vendedores ambulantes de sorvetes para operar na comunidade. A medida entra em vigor agora no início de julho.
As estatísticas da própria Assembléia das Primeiras Nações (AFN, em inglês), grupo que engloba os diferentes povos indígenas do Canadá, são alarmantes.
A diabete afeta entre 3 e 5 vezes mais os indígenas que ao resto dos canadenses. Um entre cada 3 nativos maiores de 55 anos sofre da doença. Metade das crianças indígenas é obesa ou tem diabete.
A população da tribo squamish é de 3.292 pessoas que vivem em aldeias na província da Colúmbia Britânica, ao norte da cidade de Vancouver.
A assistente social considera que os squamish são presa fácil para os vendedores de sorvetes que dirigem caminhonetes constantemente pelas comunidades, especialmente no verão canadense.
"Temos crianças que comem sorvetes duas ou três vezes por dia", declarou ela jornal "North Shore Outlook".
Doris Paul, que sofreu a epidemia de diabete na própria família, acrescentou que não é só uma questão de proibir os sorvetes.
"Temos que educar as crianças em idade de tomar sorvete.
Precisamos educá-los para que eles mesmos ensinem seus pais", acrescentou.
O pai de Doris Paul morreu há poucos meses, com 76 anos, em conseqüência de dificuldades causadas pela diabete. EFE

domingo, janeiro 21

I CONGRESSO DE FILOSOFIA EM SÃO THOMÉ


Zeus volta a ser adorado na Grécia 1.600 anos depois


Levou mais de 1.600 anos, mas o antigo deus grego Zeus voltou a ser adorado, no melhor estilo pagão, por um pequeno grupo de fiéis, neste domingo, num antigo tempo do coração de Atenas, na Grécia. Esta é a primeira cerimônia do tipo registrada no templo de 1.800 anos de Zeus Olímpico desde que a religião pagã foi proibida pelo Império Romano, no final do século IV.
Cerca de 200 pessoas participaram da cerimônia, organizada pela Ellinais, um grupo ateniense que luta para trazer de volta a velha religião. O grupo desafiou uma norma do Ministério da Cultura, que proibiu o acesso à área, no centro de Atenas.
Os adoradores, vestindo fantasias que evocam trajes do passado, recitaram hinos pedindo que Zeus, "rei dos deuses e movedor das coisas", trouxesse paz ao mundo.
"Nossa mensagem é de paz mundial e um modo de vida ecológico, no qual todos têm direito à educação", disse Kostas Stathopoulos, um dos três sacerdotes que supervisionaram o evento, uma celebração do casamento entre Zeus e Hera, a deusa do matrimônio.
A Ellinais, que tem 34 membros registrados, já venceu uma batalha judicial para que a antiga religião grega fosse reconhecida pelo governo. Agora, o grupo quer que a sede seja declarada como local de culto - decisão que poderia permitir aos sacerdotes dos deuses antigos realizar casamentos e outros serviços. (fonte: www.yahoo.com.br)

sexta-feira, janeiro 19

Genes contribuem com inclinação religiosa

da Folha Online
Os genes podem ajudar a determinar de qual religiãouma pessoa será. É o que diz um novo estudo feito nosEstados Unidos. E os efeitos dessa tendência religiosapodem sumir com o tempo, publicou a revista "NemScientist". Até 25 anos atrás, os cientistas diziam que ocomportamento religioso era produto da socialização ouda criação da pessoa. Mas estudos recentes, incluindoeste, realizado com gêmeos adultos que foram criadosseparadamente, sugerem que os genes contribuem emcerca de 40% na religiosidade de uma pessoa. Mas não está claro como essa contribuição muda com osanos. Alguns estudos com crianças e adolescentes --compais biológicos ou adotivos-- mostram que eles tendema espelhar as crenças e comportamentos religiosos dospais com que vivem. O que mostra que os genes têm umpapel pequeno nessa idade. Agora, pesquisadores liderados por Laura Koenig, umapsicóloga da Universidade de Minnesota tenta mostrarcomo os efeitos da natureza e da criação mudam com osanos. Seu estudo sugere que, quando o adolescente vaise tornando adulto, os fatores genéticos tornam-semais importantes na determinação de qual religião apessoa vai seguir que fatores relativos ao meio . O grupo aplicou questionários em 169 pares de gêmeosidênticos (100% iguais geneticamente) e 104 pares degêmeos bivitelinos (com 50% de identidade genética),nascidos em Minnesota. Os gêmeos, todos homens com cerca de 30 anos, foramquestionados acerca de seus hábitos religiosos atuaise as respostas foram comparadas à suas práticasreligiosas da época em que viviam com seus pais.
Revista Galileu: Os genes de Deus Raízes biológicas explicam de onde vem a inclinaçãohumana para a religiosidade e como o cérebroexperimenta a transcendência Camila Artoni Crescimento de 7,5% ao ano das igrejas evangélicasbrasileiras, um milhão de católicos presentes aovelório do papa João Paulo II no Vaticano, conversõesem massa, na Índia, ao hinduísmo: o que esses eventostêm em comum? Dizer "Deus" é apostar em uma respostaarriscada. Se existe um deus, ou vários, ou não, é umdado que a ciência ainda não é capaz de provar, talveznunca seja. Mas por que cremos é algo que já pode sermais bem compreendido. E trabalhos recentes afirmamque as bases da fé estão nos nossos instintosprimitivos, como a nossa tendência natural a comermais do que precisamos, nossa preferência porparceiros fortes e saudáveis para a reprodução e anossa capacidade de ser feliz (ou a falta dela). Até um quarto de século atrás, os cientistasacreditavam que o comportamento religioso era produtoda socialização ou da educação recebida em casa. Não éo que diz a pesquisa de Laura Koenig, psicólogaamericana da Universidade de Minnesota, que acaba dedivulgar o resultado de seus estudos com gêmeos. Emseu relatório, Koenig atribui ao DNA cerca de 40% departicipação no nível de religiosidade de uma pessoa.É um número que impressiona. Para se ter umacomparação, sabe-se que os genes são responsáveis por27% dos casos de câncer de mama, por exemplo. Mais de 250 pares de gêmeos, idênticos enão-idênticos, responderam a perguntas sobre afreqüência de serviços religiosos, orações ediscussões teológicas em suas vidas. Dados sobre paise outros irmãos também foram coletados. Conclusão:quando eram mais novos e conviviam mais com outrosmembros da família, todos tendiam a ter um nível deespiritualidade semelhante, demonstrando forteinfluência do ambiente na decisão; na idade adulta,somente os univitelinos (que têm carga genética 100%igual) continuavam compartilhando os mesmos índices."Quando os filhos saem de casa e entram nauniversidade ou no trabalho, a interferência dos paiscomeça a enfraquecer", diz a pesquisadora. "Nesseponto, temos de tomar as nossas próprias decisões e abiologia passa a falar mais alto." Em suma: sejamoscrentes ou céticos, a "culpa", em grande parte, é danossa genética. A idéia de um "gene de Deus" refere-se ao componenteinato do homem para a espiritualidade. Não significaque exista um gene que faça com que as pessoasacreditem em Deus, e sim que a predisposição a serespiritual (seja seguir preceitos religiosos fechados,acreditar na existência de um ser superior ou buscaruma origem esotérica para o mundo) é herdada por nósgeneticamente. O trabalho de Koenig não é o primeiro a fazer essaproposição. Ano passado, Dean Hamer publicou "The GodGene", livro em que explica como a fé está fortementeconectada ao nosso DNA. Chefe do laboratório debioquímica do Instituto Nacional do Câncer dos EUA,Hamer foi ainda mais longe e deu nome aos bois. Eleafirma que pelo menos um gene específico é responsávelpelo controle das substâncias envolvidas na emoção ena consciência religiosas. Fortes porque crêem É preciso ter cautela aqui. O VMAT2, como é chamado ogene, pode ser importante, mas certamente não respondesozinho pelo funcionamento de algo tão complexo. "Nãohá um gene para a religiosidade", diz Laura Koenig. "Oefeito genético está relacionado, na verdade, aosgenes que influenciam a personalidade. É isso que fazcom que algumas pessoas sejam mais propensas aacreditar em religiões do que outras." Se a religiosidade está mesmo sob influência dagenética, fica implícito que esse traço foiselecionado durante o processo evolutivo. O que nosleva a crer que, provavelmente, trouxe vantagensadaptativas para os primeiros crentes. Algumasdescobertas sugerem quais podem ter sido. Sabe-se quea espiritualidade já foi associada, por exemplo, com ocomportamento altruísta, e a falta dela com índicesmaiores de criminalidade. No plano físico, estudosdemonstram que o otimismo promovido pela fé estárelacionado a uma saúde mais forte, avaliada pelamenor incidência de derrames e enfermidades cardíacas.As taxas de abuso de drogas, alcoolismo, divórcio esuicídio são muito mais baixas entre os religiosos,que também sofrem menos de depressão e ansiedade doque a população em geral, e quando sofrem se recuperammais rápido. Com certeza, traços que ajudaram nossosantepassados a viver mais. Hamer admite que há provavelmente dezenas de outrosgenes, ainda por serem identificados, que desempenhampapéis na capacidade de ser religioso. Mas a origemgenética, insiste, é inegável. Para ele, só umainclinação biológica para a espiritualidade poderiaexplicar o número cada vez maior de adeptos de seitasnão-tradicionais e a presença de centenas de religiõesno mundo inteiro. De fato, a religiosidade faz parteda experiência humana desde sempre. Mais de 30 milanos atrás, nossos ancestrais já pintavam em suascavernas imagens de sacerdotes e feiticeiros. Ao longodos tempos, as fés institucionalizadas e tribais seespalharam de tal forma que não há lugar algum noglobo que escape das estatísticas. Só que o conceito da espiritualidade inata está longede ser consenso. A própria psicologia bate o pé contraisso. Mesmo reconhecendo que os genes possam serdominantes sobre o comportamento, o papel do ambientenão deixa de ser importante. A pesquisadora daUniversidade de Minnesota ressalta esse ponto."Influências do meio continuam tendo alto impactosobre a religiosidade. Os indivíduos de umadeterminada cultura podem ser extremamente observantespor razões culturais, as pequenas variações no nívelde religiosidade entre eles é que se explicam pelagenética", explica Koenig. Essa força universal também foi explicada por outraárea do conhecimento, a psicologia analítica,introduzida pelo psiquiatra suíço Carl Jung(1875-1961). Segundo sua teoria dos arquétipos(conteúdos simbólicos da mente, compartilhados portoda a humanidade), a busca por Deus - ou pelaplenitude, ou por si mesmo - é um elemento básico dapsique humana. Por dentro do cérebro que crê Como a meditação e as orações mexem com a nossaestrutura interna Lobo Frontal - É a parte mais desenvolvida do cérebro,responsável pela concentração, pelas emoções e pelaautoconsciência. Atividade fica acelerada Tálamo - O controlador dos nossos sentidos, esse órgãofoca a nossa atenção pela forma como armazenarinformações coletadas. A meditação reduz o fluxo desinais Lobo Parietal - Região que processa informaçõessensoriais sobre o mundo ao redor, orientando-nos notempo e no espaço. Atividade fica reduzida Formação Reticular - Como sentinela do cérebro, essaestrutura recebe os estímulos que chegam e nos põem emalerta. Estados alterados de consciência o amortizam Experiência universal Em termos religiosos e espirituais, é como se anecessidade de encontrar um sentido místico para avida estivesse impressa na nossa alma. Pessoas que nãosão capazes de crer estariam desconectadas dessanecessidade primordial. Enquanto as ciências humanas explicam a fé como umprocesso cognitivo, a abordagem neurológica vai emoutra direção. Andrew Newberg, da Universidade daPensilvânia, decidiu olhar para os rastros daespiritualidade no cérebro. Usando imageamentocerebral, ele pôde ver de perto o que acontece quandoalguém medita ou reza. Medindo o fluxo da correntesanguínea dos voluntários, avaliou que áreas eramresponsáveis pela sensação de transcendência. Quanto mais fundo as pessoas vão na prática, descobriuNewberg, mais ativos ficam o lobo frontal e o sistemalímbico. O primeiro é onde se localiza nossacapacidade de concentração e atenção; o segundo é ondesentimentos poderosos, inclusive o êxtase religioso,são processados. Ao mesmo tempo, a região que controlanossas noções de tempo e espaço fica entorpecida. Acombinação desses efeitos é uma experiência espiritualriquíssima. "Deus não é resultado de um processo deraciocínio", diz o neurocientista. "Ele foi descobertomisticamente, pelo próprio maquinário cerebral. Ohomem não inventou Deus, o experimentou." Estágios da fé Genes à parte, a espiritualidade não tem um botão quepode ser ligado e desligado, e uma tendência a crernão significa garantia de vida religiosa estávelfeliz. De acordo com o professor de teologia JamesFowler, o desenvolvimento dessa área da vida segue opadrão de qualquer outro processo psicológico humano,ou seja, acontece por fases. A jornada religiosacompleta começaria na infância, a partir de um estágioem que vemos o mundo como mágico, e seguiria até umasexta etapa, em que o crente é um místico capaz deexperimentar um profundo senso de unidade com ouniverso. E Deus nessa história? A maioria dos teólogos recusa-se a aceitar que aexperiência de Deus seja reduzida a reações químicasno cérebro. Em geral, as religiões preferem a idéia deuma revelação vinda "de cima". Para a ciência, acomprovação de uma origem genética para a fé e omapeamento da crença no cérebro não dizem nada sobre aexistência de Deus. As pesquisas apenas explicam porque há diferentes graus de envolvimento religiosoentre as pessoas e que tipo de elevação provam aquelesque crêem. Mas tudo isso pode, ainda, ser invenção de Deus. Háquem defenda até que os genes façam parte dosofisticado projeto divino para a humanidade. Enquantoas origens e os efeitos da religiosidade podem sermedidos pela ciência, a existência de Deus, só pelafé. Mas isso não significa ter de mantê-las separadas.Como bem apontou Albert Einstein, a ciência semreligião é manca e a religião sem ciência é cega. Para ler • "The God Gene", Dean Hamer. Doubleday. 2004 • "Why God Won't Go Away", Andrew Newberg. Ballantine.2002 • "Religion Explained", Pascal Boyer. Basic Books.2001 http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT954012-2989-1,00.html

quinta-feira, janeiro 18

OS RUMOS DO MERCOSUL

Por Julio César Villaverde
RIO DE JANEIRO (Reuters)
O estremecido Mercosul enfrenta nesta semana importantes desafios para fazer frente a persistentes ameaças à sua unidade e ao caminho traçado quando começou a funcionar, há mais de uma década.Diferenças entre dois sócios levadas ao tribunal de Haia, medidas polêmicas anunciadas por seu membro mais recente e questionado, a Venezuela, e o possível ingresso da Bolívia como membro pleno são alguns dos desafios.A estas dificuldades soma-se a batalha do presidente venezuelano, Hugo Chávez, para dar um perfil mais ideológico ao Mercosul --que seria reforçado com a chegada de seu colega boliviano, Evo Morales--, e o crescente desencanto do Paraguai e do Uruguai, os menores membros do bloco.Ao Brasil, como sócio maior, caberia a responsabilidade de lidar com tais conflitos e exercer sua liderança natural para proteger a união aduaneira, algo que inclusive lhe foi pedido pelo Uruguai."Realmente o estado de ânimo do Mercosul tem sido um pouco beligerante nos últimos dias", disse à Reuters o diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro, ao ressaltar esses antecedentes.O bloco --que é composto por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela-- realizará uma reunião de cúpula na sexta-feira, em um luxuoso hotel do Rio de Janeiro, na qual poderão ser abordados os desafios aos rumos da união aduaneira, estabelecida em janeiro de 1995.O encontro será precedido na quinta-feira por uma reunião para a qual, além dos chefes de governo do Mercosul, foram convidados os dos países associados --Bolívia, Chile, Equador, Colômbia e Peru--, e do Panamá, Suriname e Guiana.
BLOCO ECONÔMICO OU IDEOLÓGICO?
Na quinta-feira, também se reunirão os ministros de Relações Exteriores e de Economia do Mercosul, que, segundo a agenda, discutirão medidas para aliviar os efeitos negativos das assimetrias dos sócios, que afetam, sobretudo, Paraguai e Uruguai.Os dois países se mostraram descontentes com o bloco e insinuaram que poderiam abandoná-lo se lhes fosse permitido firmar acordos de comércio extra-regionais, algo vedado pelo bloco.A reunião ministerial, no marco do chamado Conselho do Mercado Comum (CMC), também analisará uma carta de Morales propondo que a Bolívia integre o bloco como membro pleno.A aceitação ao pedido de Morales, um amigo e sócio de Chávez, aumentaria a influência do líder venezuelano, que tomou posse para um terceiro mandato na semana passada prometendo levar seu país ao socialismo, inclusive com a entrega de sua vida.Também se espera que outro socialista declarado e amigo de Chávez, o novo mandatário do Equador, Rafael Correa, peça o ingresso de seu país como membro pleno do Mercosul.Para alguns analistas, esses não são bons ventos para o bloco e desafiam em particular a Lula, que segue uma linha de centro-esquerda que equilibra uma política econômica ortodoxa com medidas de ajuda aos mais pobres."A entrada da Venezuela no Mercosul (em julho), se for analisada economicamente, é bem-vinda. Politicamente é que se gera uma certa insegurança", disse Castro."Meu receio é que o Mercosul seja transformado em um bloco ideológico e não econômico... a eventual vinda do Equador e da Bolívia neste momento seria ideológica e não econômica", acrescentou.Para ele, o Brasil, como líder regional, deve dar o exemplo e tomar decisões dizendo "exatamente se o Mercosul é um bloco econômico, um bloco político ou um bloco ideológico", complementou.
IRMÃOS EM LITÍGIO Além disso, a reunião de cúpula verá a Argentina e o Uruguai em litígio na Corte Internacional de Haia pela construção de uma fábrica de celulose em território uruguaio, sobre o limítrofe rio Uruguai, que enfrenta resistência argentina por seu possível efeito negativo sobre o meio ambiente.Pouco antes da reunião, o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, deixou em evidência a tensão das relações, inédita para países vizinhos e com uma raiz histórica comum."Encontrar-nos, nós vamos, porque estaremos no mesmo ambiente. Não está marcado nenhum encontro bilateral", disse friamente Vázquez sobre uma eventual reunião no Rio de Janeiro com seu colega argentino Néstor Kirchner.O Mercosul e o próprio Brasil se mostraram omissos no caso, expondo limitações no sistema jurídico do bloco e na liderança do maior sócio.O chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse recentemente que seu país se absteria de fazer uma mediação entre Argentina e Uruguai, indicando que "devem falar (entre) eles" para buscar uma solução às suas diferenças.
[meu comentário]Na verdade existe um outro dado que deixa essa reportagem com um certo receio do novo mercosul. Um dos assuntos em pauta, que não está mencionado no texto acima, é a criação do Banco Sul, o qual substituiria instituições internacionais como o FMI. Acompanhem as várias fontes sobre o assunto durante a semana.

segunda-feira, janeiro 15

Uma novo horizonte latino-americano com a posse de Rafael Correa


Enquanto analistas políticos equatorianos ainda têm dúvidas em relação à tendência que será adotada pelo novo presidente do país, Rafael Correa, que toma posse nesta segunda-feira em Quito, ele próprio demonstrou se sentir muito à vontade com a linha anti-EUA e de nacionalização de seus colegas da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales.
Os três passaram o domingo juntos no Equador, onde Morales e Chávez acompanham a cerimônia desta segunda, e mostraram porque são considerados os mais radicais representantes da esquerda que consolida seu crescimento na América Latina. Ao tomar posse simbólica na comunidade indígena Zumbahua, na província de Cotopaxi, Correa reafirmou seu discurso contra o neoliberalismo e, assim como Chávez, exaltou a “nova esquerda do continente”.
"Como um milagre foram derrubados os governos servis, as democracias de papel, o modelo neoliberal, e começou a surgir a América Latina altiva, livre, soberana, justa e socialista do século XXI. O servilismo, o entreguismo estão sendo jogados na lata de lixo da história", disse Correa.
Correa, Morales e Chávez usaram ponchos de lã de ovelha confeccionados pelos indígenas Zumbahua, comunidade na qual o presidente equatoriano trabalhou na juventude como voluntário da ordem salesiana. Em seu discurso, Chávez pregou a integração latino-americana e defendeu um bloco econômico “bolivariano” como alternativa à Alca, a área de livre comércio proposta pelos EUA.
"A Alca pode ir para o inferno. O imperialismo americano precisa cair, a América Latina precisa se unir", disse Chávez, afirmando que agora a esquerda “ressuscitou no continente” e chamando Correa de líder comprometido com o povo pobre do Equador e com a união latino-americana.
Assim como Chávez, que assustou investidores internacionais na semana passada ao afirmar que nacionalizará os setores energético e elétrico, Correa promete rever todos os contratos das empresas petrolíferas estrangeiras que operam no Equador e prometeu suspender os pagamentos da dívida externa do país caso não consiga negociar melhores condições.
O presidente de Honduras, Manuel Zelaya, aparentemente também seguindo Chávez e Morales, anunciou que seu governo tomará os terminais de armazenamento de petróleo das empresas estrangeiras. Zelaya disse que a ação é apenas temporária.
Secretário de Comércio dos EUA e representante do presidente George W. Bush na posse, Carlos Gutierrez disse, em sua chegada a Quito, que não espera qualquer problema entre os dois países: "Somos amigos há muito anos e esperamos ter uma amizade com benefícios mútuos por muitos anos".
Assim como Morales na Bolívia, Correa quer mudar a Constituição e, para isso, um de seus primeiros atos será a convocação de uma consulta popular sobre a Assembléia Constituinte, que enfrenta forte resistência no Congresso. Desde a campanha eleitoral, Correa faz fortes críticas à Constituição do Equador — que classificou de incoerente, contraditória e neoliberal — e ao Congresso.
A posse do oitavo presidente equatoriano desde a redemocratização, em 1979, atraiu autoridades latino-americanas, européias e árabes. Além de Chávez e Evo, participarão da posse, o príncipe das Astúrias, Felipe de Borbón; a presidente do Chile, Michele Bachelet; os presidentes de Peru, Alan García; Paraguai, Nicanor Duarte; Colômbia, Alvaro Uribe; e Nicarágua, Daniel Ortega. E representantes de Cuba, Costa Rica e Argélia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega hoje pela manhã a Quito.
Apesar da presença de chefes de Estado amigos de Correa, como Lula, Evo e Chávez, o que causa mais polêmica no Equador é a presença do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. A comunidade judaica em Quito protestou contra a presença de Ahmadinejad, que prega a destruição de Israel e disse que o Holocausto é um mito. A participação do iraniano na posse seria o motivo da ausência do presidente da Argentina, Néstor Kirchner — o governo do Irã é acusado por promotores argentinos de ter apoiado o atentado na AMIA, em 1994, que matou 85 pessoas.
Até este momento, fontes dizem que o governo brasileiro não tem motivos para desconfiar das ações do novo presidente equatoriano. Logo depois de eleito, Correa foi recebido por Lula, disse querer entrar no Mercosul e estar satisfeito com a atuação de empresas brasileiras no seu país.
Ex-ministro da Fazenda do governo tampão de Alfredo Palacio, que entregará hoje o poder depois de 20 meses no poder, Correa disse que manterá a dolarização da economia do país, mas pretende adotar medidas radicais para acabar com a pobreza, a corrupção, a crise institucional e a concentração de renda que assolam o país. (Fonte: O Globo)

quarta-feira, janeiro 10

Uma nova república socialista?


O presidente reeleito da Venezuela, Hugo Chávez, tomaposse nesta quarta-feira para seu novo mandato, quevai até 2013, com promessas de uma radical revolução socialista e de nacionalizações, que já derrubaram os mercados financeiros.Animado por sua tranquila vitória eleitoral dedezembro, o líder antiamericano vem flertando audaciosamente com as polêmicas: recusou-se a renovara concessão de uma rede de TV oposicionista e prometeuassumir o controle de empresas importantes, algumasdas quais de capital estrangeiro."Estamos avançando para uma república socialista da Venezuela", disse Chávezna segunda-feira, quando anunciou políticas como o fimda autonomia do Banco Central e um pedido ao Congressopara que o presidente tenha poderes legislativosespeciais.Os mercados financeiros reagiram à guinada de Chávezainda mais à esquerda. A Bolsa perdeu quase um quintodo seu valor na terça-feira, os títulos da dívidacaíram a seu menor valor em seis semanas, e a moedalocal foi vendida a quase o dobro da taxa oficial.A oposição acusa Chávez, no poder desde 1999, detentar transformar o país, grande exportador depetróleo, em uma economia centralizada, ao estilocubano.Reeleito com 63 por cento dos votos em dezembro, opresidente estimulou ainda mais as comparações comFidel Castro ao anunciar a formação de um partidoúnico para apoiá-lo, embora declare que sempre vaitolerar a oposição.Chávez já controla o Parlamento e o Judiciário, eafirma que apenas seus seguidores devem ser admitidosno Exército e na estatal petrolífera PDVSA. A mídia ea infra-estrutura, seus novos alvos, são dois setoresque poderiam completar seu controle sobre o Estado.O presidente diz necessitar de mais poderes parasalvar a Venezuela da exploração e mesmo de um ataquede países capitalistas, especialmente os EstadosUnidos.Ainda não se sabe se o governo pretende assumir ocontrole de 51 por cento das empresas energéticas ouestatizá-las totalmente. Entre as empresasestrangeiras ameaçadas pela decisão estão Chevron,Exxon Mobil, ConocoPhillips, Statoil e Total.Chávez já confiscou enormes fazendas de pecuária,algumas de propriedade estrangeira, para distribuirterras aos pobres."Ele está falando como o mestre da Venezuela, tentandoguiar a Venezuela para a escuridão", disse o líderoposicionista Manuel Rosales.Já o chanceler Nicolás Maduro defendeu os planos deChávez. "Esta é uma missão de resgate para a soberaniada Venezuela."

sábado, dezembro 30

Por uma Filosofia latino-americana

(...) Por último queremos indicar que a filosofia, como pensar analético, sabe que surge da práxis e que o próprio pro-jeto de estar-na-verdade que torna possível a vida do filósofo não é um projeto filosófico, mas o projeto de um homem. Homem que antes de ser filósofo teve a vocação do outro como um estar-em-sua-verdade, em seu des-cobrimento. Por isso a filosofia na América Latina é latino-americana, embora quase todos a neguem. Porque aquele que, na América Latina, pensa filosoficamente (se não for um sofista ou acadêmico irreal) sabe que sua teoria emerge da práxis latino-americana, de seu mundo histórico e cotidiano. Sabe que seu projeto filosófico latino-americano é distinto do europeu. A filosofia latino-americana como tarefa de um homem, como um pensar que pensa a realidade da libertação, é específica para cada horizonte cultural. É possível que a Europa, por suas exigências existenciais e históricas presentes, exija do filósofo e lhe atribua a vocação de pensar o técnico, o lúdico, ou o artístico. É possível que a América Latina atribua ao filósofo, como vocação de quem é oprimido, como projeto humano total, pensar o político, a libertação, porque o político é relação homem-homem e o homem latino-americano vive prostrado sob a dominação política, econômica, cultural, humana. O processo do crescimento do homem latino-americano significa supressão, aniquilação das determinações negantes: trata-se de um movimento de libertação, um libertar no homem seu ser negado. Este processo que precisa acontecer em todos os níveis da cultura, o filósofo é chamado a formulá-lo, ou as gerações futuras lançar-te-ão ao rosto essa sua inércia, essa sua culpa por escapismo. Por isso, colocando as condições de possibilidade de uma correta formulação conceitual que, após o que foi dito, já não poderá ser apenas européia, poder-se-á obter um sistema interpretativo latino-americano para realizar a mudança rápida, revolucionária, pela qual clama um povo subdesenvolvido. Este trabalho abre um caminho, sem maiores pretensões: trata-se de uma recolocação da questão dialética em Hegel, considerando seus antecedentes e suas possíveis superações para poder intentar uma formulação adequada de um concreto sistema interpretativo latino-americano da revolução libertadora da dominação que as superpotências impuseram, fazendo-nos submergir numa "cultura do silêncio". (DUSSEL, 1986, p. 254).
Enrique Dussel